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sábado, setembro 12, 2015

Eingya (2006), de Helios, ou: O caos da vida diária misturado à rotina numa bebida agridoce


Essa é a capa do disco. Linda, não é?
Descobri faz uma semana uma música que me deixou completamente desarmado e me ligou num loop: "Bless This Morning Year", do artista Keith Keniff, conhecido como Helios.


Sério, você precisa escutar esse cara. 


Helios faz um som instrumental classificado (cautela, cautela com as classificações) como ambient music, electronic, indie, experimental e progressive. Este disco, Eingya, é lindo e cheio de texturas. Sons de água corrente, pássaros, vento, respiração, passos... Uma experiência sinestésica alimentada por violões doces, violoncelos, guitarras distorcidas, a batida eletrônica e um piano melódico.

Lindo. Colorido. Profundo. Escuro. Solitário. Como uma tarde chuvosa.

As músicas se completam e se complementam, sequências de diferentes momentos. Helios entra em sua cabeça e faz você pensar em nada e tudo ao mesmo tempo. Dá vontade de escrever, de contar uma história que não se sabe ainda qual é.

A capa do disco é belíssima. O disco todo o é. Absurdo em sua simplicidade.

O caos da vida diária misturado à rotina e batido, transformado em uma bebida agridoce, metálica e eletrificada. O toque de uma antiga paixão. A luz do fim de tare penetrando pelas frestas do telhado. O barulho do vento nas árvores do quintal. O cheiro da chuva. A risada das crianças. A consciência de que o amor e o amar devem amadurecer e morrer. 

Tudo isso é Helios em "Eingya". E mais o bocado que ainda não consegui decodificar e decifrar.

Helios fala para a pele, para as vísceras. Ressoa com o sangue. Microbolhas de um prazer triste. Aquele sorriso que escapa apesar da escuridão.

Melhor consumido quando se está sozinho. 

Recomendo demais. Nota dez de dez.

Forte abraço a todos e um bom fim de semana.

P.S.: Estava com saudades de escrever aqui. ;)

domingo, julho 12, 2015

The Life Aquatic With Steve Zissou Soundtrack - Seu Jorge, ou: Apenas escute, ok?


Ouvir David Bowie é bom?
Sem dúvidas.
Ouvir Seu Jorge é bom?
Sim!

Agora junte os dois, dê liberdade ao Seu Jorge para fazer as letras do jeito que ele quiser, e então teremos a  trilha sonora alternativa do filme "A Vida Marinha de Steve Zissou", do Wes Anderson.

Cara, o Seu Jorge é um puta cantor, e toca demais. As versões do Bowie que ele faz são puramente voz e violão. E o bacana? Ficaram demais!

Tá certo que ele mudou completamente as letras(exceção à Starman, que ele aproveitou a letra de Astronauta de Mármore), e às vezes viaja um pouquinho nas histórias que conta, mas, ei! É a trilha sonora de um filme do Wes Anderson!



É um trabalho delicado, suave, maduro, malandro. As faixas escolhidas por Seu Jorge são perfeitas para criar um clima de fim de tarde à beira mar, e casam totalmente com a ideia do filme - que, se você ainda não viu, aconselho que assista. Se você é fão do Wes,  vai adorar. Se não... bom, não vai fazer diferença nenhuma para você e nem para a humanidade.

Escute com a mente aberta e aprecie o talento deste que é, em minha opinião, um dos maiores talentos da música brasileira na atualidade. Eu até perdoo ele por suas associações pouco felizes e desnecessárias(Ivete Sangalo, p. ex.).



Atenção às faixas: "Life on mars?", Ziggy Stardust", Lady Stardust", "Changes", "Oh! You Pretty Things", "Rock N' Roll Suicide", "Five Years" e "Space Oddity" - sendo que Space Oddity não consta dessa compilação, mas faz parte do filme e é uma das mais bonitas do disco.


Um disco delicioso! Bon Apetit!

sexta-feira, julho 03, 2015

O Vinho (2001) - Fagner

 

Já falei aqui várias vezes pelo meu carinho pelo Fagner, um dos artistas mais importantes do Ceará - e do Brasil. Hoje falaremos de um disco de 2001, "O Vinho", dedicado ao Gonzaguinha.


Neste trabalho, Fagner consegue achar um equilíbrio orgânico entre sua fase aguerrida de início de carreira ("O muezim que berra arroios") e os anos 1990 com seu ultrarromantismo. Ele retoma também antigas parcerias (Fausto Nilo e Abel Silva), e cria uma nova com Zeca Baleiro - parceria que rendeu e rende até hoje, para o bem dos fãs.

O disco é consistente e coerente. Fagner é eficiente e honesto em seu cantar, passando verdade e tocando - levemente - as múltiplas vozes que lhe eram características no passado.

Mas o que impera aqui é o lirismo de Fagner, que na maior parte do álbum canta sem fazer esforço, com sua música fluindo entre gêneros - e línguas - diversos, porém se complementando em sua sequência.

Minhas preferidas:

O vinho (Uma das mais lindas, parceria com Fausto Nilo.)
Jardim dos Animais (Forrózim delicioso e romântico, mais uma com Fausto.)
Tempestade (A mais bonita da parceria com Baleiro neste disco.)
Olhar Matreiro (Uma mais antiga, escrita com Cazuza. Você imagina ele cantando facinho.)
Sem Teto (Fagner canta muito, e guitarras distorcidas evocam o passado. Belíssima.)
Feliz (Versão da música de Gonzaguinha.)
Cor invisível (Belo poema de Abel Silva com guitarras portuguesas, é um lindo fado!)
Eu e Tu (Outro forrozim, mais tradicional. Linda!)
Outra Era (Mais um forrozim de raiz, maravilhosa. Mais uma de Fagner e Baleiro.)


É um disco de fácil audição para quem já é fã, mas não indico como porta de entrada para conhecê-lo. Pode ser escutado no sábado à tarde, acompanhado de cervejas geladas.

Altamente recomendado, muito querido e várias vezes escutado.

Abraços a todos e um bom  fim de semana.

E FELIZ FÉRIAS! Que passem devagar. Curtam!

segunda-feira, junho 22, 2015

Lenine - Carbono, 2015

Carbono é o 10° álbum de estúdio do pernambucano Lenine e é, também, o disco que você precisa ouvir (e ouvir, e ouvir) antes de ir nos shows atuais do cantor.
Isso porque, em sua turnê atual, Lenine trás um repertório quase que totalmente embasado no seu novo trabalho. Uma de suas apresentações mais recentes, na Virada Cultural, só trouxe meia dúzia das canções conhecidas e aclamadas pelo público. Entre elas Do It e a já religiosa Paciência, a qual o artista já nem mais se dá ao trabalho de cantar.

quinta-feira, junho 11, 2015

Novo Aeon - Raul Seixas, ou: Contra ser a favor.


Um novo éon se iniciou na música brasileira com a chegada de Raul. Após anos na estrada como Raulzito, entrou no mercado fonográfico com o icônico "Krig Ha, Bandolo!" (1973), assinando agora como Raul Seixas.

E Raul Seixas seria até o fim de sua vida física.

Mas hoje falaremos de um outro trabalho lendário: "Novo Aeon", de 1975.


Um disco introspectivo e reflexivo, mas nem por isso silencioso. Barulhento e incomodante no sentido de "mexa-se do seu centro de conforto, seu babaca egoísta", "Novo Aeon" trata de temas polêmicos como amor, fidelidade, egoísmo, Deus, obsessão, perseverança... Raul e seu parceiro Paulo Coelho nos dão aqui um trabalho honesto e verdadeiro, em momento algum se perdendo em ambiguidades.


Raul canta o que Raul vive e acredita, e não aceita o que já está estabelecido ou que é dado como certo. Raul traça um caminho novo, mexe com conceitos e preconceitos, inova e renova-se, mostrando suas variadas facetas através de seus passeios em variados estilos musicais.

"Novo Aeon" é um trabalho maduro, de um artista que já havia se consagrado e não precisava se apresentar. Raul já tinha sua base de fãs, e cantava para eles. Cantava com eles.

Somos um com Raul em "Novo Aeon" - salvas as devidas proporções.


Raul fala do dia a dia, das aulas da faculdade, da hora do banho, do jantar e do café da manhã. Fala de dúvidas e caminhos a escolher, fala de medos e receios, e fala descaradamente de amor. Tão verdadeiro, profundo e intenso que chega a chocar com tanta sinceridade.


A voz de Raul, ora grave e rascante, ora aguda em falsetto, nos espeta, nos comove, nos irrita. Raul nos atinge em lugares que julgávamos protegidos, nos machuca onde jurávamos estar seguros.

Raul Seixas, o multifacetado mutante, sofre, mas nos liberta. Raul não aceita, escolhe e faz. Canta. Vive.

Quisera eu ter mais palavras para descrever o poder deste que foi um dos mais poderosos roqueiros de todos os tempos.

Um mito eterno em sua complexidade. Raul Seixas, o roqueiro; o místico; o músico; o poeta...

Quantas facetas, quantos adjetivos para descrever aquele que, além de ser uma pessoa, foi também um acontecimento.

Raul, aquele homem indefinível, mutante, imperfeito, sonhador.

Toca, Raul.






Caminhos II
Raul Seixas

Assim como

Todas as portas são diferentes

Aparentemente
Todos os caminhos são diferentes
Mas vão dar todos no mesmo lugar
Sim
O caminho do fogo é a água
Assim como
O caminho do barco é o porto
O caminho do sangue é o chicote
Assim como
O caminho de reto é o torto
O caminho do risco é o sucesso
Assim como
O caminho do acaso é a sorte
O caminho da dor é o amigo
O caminho da vida é a morte


Boa Noite a todos os nossos leitores. E espero que vocês saibam que são o MDC de nossa vida. :)

Até!

domingo, junho 07, 2015

If You Leave - Daughter, ou: Aurora Boreal Sonora (Repost)


Um som tão suave. Fios coloridos de luz num céu de fim de tarde... o som do Daughter parece uma aurora boreal sonora.

"If You Leave" (2013) é um disco pequeno, mas gigante em sua abrangência sentimental. Uma gama de poderosos impulsos se agita dentro do teu peito quando a voz suave e céltica de Elena Tonra começa as canções. Podemos dizer que o grupo gira/existe em prol dela, dessa voz mística de neblina.


Há guitarras iradas e suaves, como há violões; o baixo é presente, mas meio que insidioso; a percussão, ah, essa merece ser visitada e vivida. Na maioria das músicas, ela pulsa.

A harmonia entre o instrumental e a voz de Elena é total. As músicas, elas meio que são premeditadas, mísseis teleguiados que te acertam diretamente onde você não poderia ser acertado.

E - BAM! - Você é pego escutando aquelas canções que te deixam mesmerizado e perdido em si mesmo.

A música invade teu sangue e se insinua entre os músculos e a pele como uma paixão. Você deseja que as histórias que ela canta fossem as suas.


É como redenção para aqueles que não acreditam no Paraíso. Como se explica uma canção suave e agressiva ao mesmo tempo, mas sem violência? Como eles conseguiram cesso direto para o gêmeo maligno?

Amor, perda, saudade, frio.Escuridão, paisagens, chuva, sangue. Juventude e morte.

Isto é Daughter. Tanto poder numa banda "desconhecida"...

Quer viajar hoje para uma Inglaterra com feeling de Islândia e aproveitar os fogos do céu, presentes do sol e da capa magnética que nos rodeia? Feche os olhos.



Todas as músicas são nível "bad motherfucker". Todas elas vão te fazer querer chorar e lembrar de algo que não é memória, e sentir saudades de um lugar que não existe.


Escute esse disco, e que venham muitos mais.

Abraços sonoros do Ladrão de Almas, cansado de tudo, por tudo.

segunda-feira, maio 25, 2015

Jason Mraz - We Sing, We Dance, We Steal Things

Nunca tinha parado para realmente ouvir um disco do Jason Mraz. Ouvir a sério, música por música. Talvez por ser incapaz de pronunciar o sobrenome deste infeliz, talvez porque meus ouvidos destreinados não são bons o suficiente para compreender uma vírgula do que o cara canta em pelo menos um terço de suas músicas (e há quem diga que o Eminem fala rápido... Pfff), só não sendo mais incompreensível que as músicas do Red Hot Chilli Peppers...

sexta-feira, maio 22, 2015

"The John Lennon Song Project", por The Nu-Utopians, ou: Uma odisseia ao coração de John, na galáxia Beatles.


O que acontece quando dois caras fã-tásticos se juntam para celebrar sua paixão por John Lennon? 


Acontece isso. Uma coisa linda, singela, diferente e original - e que ainda assim segura-abraça-capta-apreende a essência de John e dos Beatles. 



Esses caras - Rex Fowler e Tom Dean - começaram este projeto chamando-se de "The John Lennon Song Project". Infelizmente, por razões legais, não puderam continuar com o nome. Batizaram-se então de The Nu-Utopians, e deram continuidade a seu projeto maravilhoso-audacioso de rever/reler grandes sucessos de Lennon e dos Fab-Four. Este é seu primeiro disco, de 2010, chama-se "Imagined", e traz lindas versões de baladas dos Beatles e de John.

Elas são tocadas e cantadas com serenidade, com calma, com vozes suaves e o coração. Arranjos simples, puros, sublimes, perfeitas canções para serem ouvias naquele momento em que as vezes o mundo grita alto demais. 

É muito fácil apaixonar-se por este disco. Mesmo que você não seja fã  de Lennon. Ou dos Beatles.

Recomendo fortemente a audição deste apaixonante/apaixonável trabalho feito por fãs profissionais (ou profissionais fãs) da maior banda de todos os tempos, e do marido da Yoko. :P


Abraços a todos no dia do abraço. Valews! (E desculpem a ausência. É por conta da turbulência). :P

terça-feira, maio 05, 2015

Sunny Side Up (2009), de Paolo Nutini

Sunny Side Up (2009) é o segundo disco de Paolo Nutini, este rapaz escocês que conheceu o sucesso muito cedo quando do lançamento do álbum These Streets (2006). Sua voz rouca e cansada tem uma sonoridade rica e cheia, contradizendo sua juventude. Sua música é rica em influências várias, e isso fica muito claro aqui neste álbum do qual vos falo.



Sunny Side Up não é um disco fácil. Nutini passeia pelos mais diferentes estilos, flertando com o reggae e com a música sulista dos EUA, passeando pela música folclórica britânica e pelo britpop com um domínio que, na voz e talento de outro, não ficaria bem. Eu mesmo vim gostar do disco após algumas tentativas. O que inicialmente parece uma abordagem esquizofrênica e estilhaçada acaba demonstrando a criatividade e o desejo experimentalista deste que é, em minha opinião, um dos cantores pop mais bem sucedidos da atualidade.

Sugiro escutar com um bom uísque.

Segue a playlist. Escutar com atenção e paciência, não se deixar assustar pelo ritmo "alegrinho" de algumas faixas.


Minhas preferidas são: Coming Up EasyGrowing Up Beside YouCandyTricks Of The Trade e No Other Way. Gosto das outras, mas não são aquelas que - puuutz, eu morro por elas.

Classificação do álbum: Sexta-Feira. Pelas baladinhas. E pelo talento do cara, que é fera demais.

Abraços e até mais.

sexta-feira, abril 17, 2015

Live at The Theater at The Ace Hotel - James Vincent McMorrow (2015)


Ele canta em dor e êxtase. Seu nome é James Vincent McMorrow, e sua voz em falsetto soa - neste registro ao vivo de seu show no Teatro do Hotel Ace, em Londres - de uma maneira cristalina e poderosa.


A seleção de músicas não poderia ser melhor. Foram escolhidas canções de seus discos "Early In The Morning" (2010) e "Post Tropical" (2013), e executadas com maestria por sua banda. James canta, ao vivo, como se em estúdio - soando de maneira incrível! O domínio de sua voz, os sentimentos que passa através de suas canções...

É simplesmente espetacular. Se você, já conhecedor dos discos anteriores e, inegavelmente, fã, conhece a qualidade e o sentimento desse cara,você vai novamente se encantar. Destaco aqui as versões excelentes de "Cavalier", "If I Had A Boat", "The Lakes", "Down The Burning Rope" e a lindíssima "If I Leave".

Imperdível.

Obrigado, bom disco e boa noite.

quinta-feira, abril 16, 2015

Daniel Johns - Aerial Love (EP), 2015


Quem lembra do Silverchair? A banda de grunge/rock que fez um sucesso gigantesco nos anos 90? Apesar de ter dado uma desaparecida violenta, a banda só acabou realmente em 2011, sem grande alarde (tanto que, até recentemente, eu ainda achava que eles estavam em hiato) e, desde então, ninguém mais ouviu falar nada sobre os caras.

domingo, abril 12, 2015

For In My Way It Lies (2013) - Jesper Munk


Jesper Munk foi uma surpresa para mim. Agradável, diga-se de passagem.

Um bluesman solitário, profundo e inquieto. Aliás, eu disse que o cara é alemão? Porém, canta em um inglês impecável.

Ele passeia entre vertentes de maneira muito confortável. Seu Blues deita no Rock, no Jazz e na Bossa Nova, e isso é muito agradável.

https://open.spotify.com/user/12178948860/playlist/1qY0RTUZ2cFLCBdBbr50kg (link Spotify).

"For In My Way It Lies", de 2013, é um álbum intenso e despretensioso, que bebe de várias fontes clássicas do Blues. A voz rouca de Munk é inesperada, por talvez se pensar que ela se ajustasse melhor a uma levada mais pop-rock. Mas este não é o caso. Jesper é extremamente seguro no que faz, e sua música tem sua cara: inovadora e clássica, surpreendente e honesta.

Um disco excelente, casa muito bem com uma tarde de domingo. Escute em volume alto, tomando uma boa bebida.

Recomendo fortemente.

Abraços!

sexta-feira, abril 10, 2015

Wye Oak - Civilian, 2011


Conheci o Wye Oak da forma mais inglória possível: vendo The Walking Dead, aquela série maravilhosa que, infelizmente, só teve uma temporada.

sexta-feira, abril 03, 2015

Hozier (2014), de Hozier: Leve-me à Igreja (uma última vez).


Quando ouvi "Take Me To Church" no rádio do carro tive uma epifania que não me atingia desde "Cavalier", do James Vincent McMorrow, ou "The Blower's Daughter" de Damien Rice, ou ainda "Hallellujah" na voz de Jeff Buckley. 
Hozier se revela um artista do mesmo porte/poder de Buckley, porém com uma voz mais grave e suave. A voz, inclusive, tem tonalidades de blues que superam o tom pop de algumas canções, transformando-as em algo maior. Assim é com "Take Me To Church", que vira um hino (quase) religioso.

E aqui, em seu disco homônimo, Hozier define sua religião: amor, culpa, sacrifício, medo, punição, abandono, humilhação. Um cristão sendo partido ao meio por seus desejos.

Hozier é misterioso e transparente em suas canções claramente autobiográficas. Apesar de britânico, pode-se perceber claramente a influência do blues e as guitarras modernas de suas influências (The Black Keys!). Sua música fornece assim ao ouvinte uma contradição interessante que estimula a curiosidade e - junto com a qualidade! - estimula a ouvir até o fim.

Da nova leva de artistas britânicos - dos quais considero o primeiro sendo o mestre James Blunt -, Hozier chegou como quem nada queria e, sem muito barulho, vem conquistando seu espaço e fãs.

Eu, por mim, coloquei "Take Me To Church" no "repeat". Meu coração cristão fica, assim, partido junto com o dele, enquanto reverbera ecos de "Hallellujah" e amém.

Sim, leve-me à igreja uma última vez.

domingo, março 29, 2015

Kind Of Blue (1959) - de Miles Davis, ou: Caos Calmo



Uma tarde quente e nublada. Inesperada. Uma vontade louca de escrever, de pensar, de dizer - mas sem saber direito o quê. Vagando entre as opções, encontro o disco "Kind Of Blue"(1959), de Miles Davis.


O que dizer deste que é considerado um dos discos mais influentes do século XX? O que falar do talento de Miles e de seu grupo, ao entregar um trabalho tão orgânico, tão lindo, profundo e humano?

As canções são trabalhadas à perfeição, e o que se ouve é um grupo de pessoas que transformam seus pensamentos em música de uma maneira tão harmônica que fica quase impossível não perguntar se isso é algo real.

Misto de tensão e relaxamento, um caos calmo se instala em você ao ouvir o jazz de Miles. Sem perceber, você é levado pela música a um lugar que não conhecia. E sem vontade de voltar.

É um disco atemporal, poderoso e cheio de personalidade. Para ser ouvido naqueles momentos introspectivos, naqueles dias nublados e quentes em que a vida parece se repetir sem nenhuma originalidade. Surge como uma salvação e proteção contra a loucura da falta de sentido.

Um disco essencial para a vida. Escute quando estiver sozinho, ou preso num engarrafamento, ou cercado de gente no ônibus, ou antes de dormir.

Senhoras e senhores, deixo-vos com Miles Davis. Até a próxima.

sexta-feira, março 27, 2015

A Tempestade, ou O Livro dos Dias (1996) - Legião Urbana - Feliz Aniversário e Saudades, Renato.


No dia 27 de março de 1960 nascia Renato Manfredini Júnior, conhecido como Renato Russo, o Trovador Solitário. Morreria jovem, aos 36 anos, em 1996. Foi cantor e compositor, músico e inspiração para toda uma geração.


Eu, como professor que sou, sempre me encanto ao ver meus alunos - garotos de onze, doze e treze anos - descobrindo a música da Legião Urbana e de Renato. E eles me perguntam: "Professor, como pode a música deles ainda ser tão atual, e explicar tão bem como me sinto?"

Pergunta sem resposta, meus queridos. Nem eu sei como a Legião fazia - e faz! - isso. O que sei é que a Banda e o Renato continuam eternos em nossos corações.

Hoje eu gostaria de falar um pouco sobre o último álbum da Banda lançado com Renato em vida: "A Tempestade, ou O Livro dos Dias"(1996). Sombrio, pesado, depressivo, doce, sensível, esperançoso... contraditório. Um disco com uma pegada mais rock, e com a música do grupo se mostrando sólida e madura. Renato cantando, sua voz parecia frágil e poderosa... tão estranho que pouco tempo depois ele se fosse...

Este é um dos discos que marcou minha infância. Eu tinha a fita K7, e ela rodou e rodou em meu sonzinho. Eu tinha as letras copiadas num caderno, e cantei-as à exaustão - o resultado é que até hoje lembro de todas sem perder ou errar uma palavra.

De todas as músicas deste disco - que considero excelente! - a única que não me encanta é justamente a mais tocada: "A Via Láctea". Escutei-a durante muito tempo enquanto me encontrava internado, na adolescência. Ela me lembra de dias sombrios e tempos escuros, de uma época que não gosto de recordar. 

Fora esta, todas são minhas preferidas. É como se eu conversasse - à época - com um Renato a me dar conselhos: cara, amar é sofrer, a família é a coisa mais importante, amigos são o maior tesouro, a solidão é uma droga... 

Estes conselhos me animam até hoje. Diria que de todos os álbuns da Legião, o que escutei mais vezes da primeira à última faixa (salteando "A Via Láctea", é claro!) foi este de capinha azul. Por toda sua carga emocional e confessional, considero um dos discos mais potente e bonito da Legião. O testamento do Renato. sua despedida.

E como o tempo passa e não perdoa, quase vinte anos se passaram desde a morte deste que marcou a vida de tantas pessoas. Deixo aqui minha homenagem a ele, Renato Russo, e a tudo que representou e representa na minha vida.

Urbana Legio Omnia Vincit.


Renato Russo para sempre.

Descanse em paz, amigo.

Boa noite e abraços do Ladrão de Almas.

domingo, março 22, 2015

Chasing Yesterday - Noel Gallagher (2015), ou: Noel e sua saga continuam dando certo.


Gostaria de não soar tão repetitivo quando falo do Noel Gallagher, mas... o cara é bom. Excelente, na verdade. Disco após disco reafirma-se como um dos maiores artistas do rock na atualidade.

(coloque a velocidade de play em 1,25x que dá certo!)

Seu atual trabalho - junto com seus High Flying Birds - chama-se "Chasing Yesterday". Mescla de estilos, pode-se sentir uma musicalidade subjacente oriunda dos anos 1970 pulsando por sob a música. Sobre ela, desfila o jeito Noel de fazer música: guitarras dedicadas, um sintetizador, baixo e bateria marcantes, alguns coros...

Faixa após faixa, o talento deste músico britânico te convencem que ele era - sim! - a alma do Oasis, e que a malfadada tentativa de Liam Gallagher de seguir em frente sem o irmão não poderia seguir em frente.

"Chasing Yesterday" é um disco poderoso, intenso, cheio de camadas e texturas. Entre hits velozes e baladas profundas, Noel te conduz por uma road trip que de insana não tem nada. Tudo feito sob medida por um cara que saca muito de música, para pessoas que amam a música.

Um dos melhores discos de 2015, sendo você fã de Oasis ou não.

Abraços.

terça-feira, março 03, 2015

Tiago Iorc - Umbilical (2011), ou: A História de Um Homem


Era uma vez um menino. Ele nasceu e cresceu, e ao fim de sua história havia deixado de ser menino e partia rumo ao Nada/Desconhecido. Mas, parafraseando Pessoa, entre o primeiro e o último, todos os dias foram dele.

Tiago Iorc - Umbilical by Michel Euclides Sousa on Grooveshark
Ouvir Umbilical, do Tiago Iorc, é contemplar esses aspectos da vida: nascer, crescer e morrer. Vislumbrar possibilidades, reviver lembranças, habitar - por alguns instantes - o "e se" sem sentimento de culpa...

É um disco tranquilo, com uma vibe meio "feel good movie", mas bem masculino. Cheio de dissonâncias e texturas, corajoso, bem produzido e construído. A sensibilidade de Iorc lembra os primeiros discos de James Blunt.

A voz suave de Iorc contrasta de maneira fantástica com a guitarra metalizada onipresente em seu disco. Suas canções são profundas e inspiradas, e suas letras são, com certeza, autobiográficas e donas de uma beleza singular.

O olhar de um homem que não sabe de onde veio nem para onde vai, mas sabe que está caminhando.

Um disco para se ouvir nos melhores e nos piores dias. Nos que faltam e nos que restam.

Fico por aqui. Até mais.

domingo, fevereiro 22, 2015

Djavan - Coisa de Acender (1992), ou: Pequenas camadas de grandes coisas que acontecem quando a gente ama (22/02/2015)


É preciso saber da poesia do amor, de suas tortuosas correntezas e encruzilhadas, de toda a profundidade e dor para ouvir, amar e sentir o que Djavan canta.

Djavan - Coisa de Acender by Michel Euclides Sousa on Grooveshark
Não é fácil. Suas palavras e rimas não são óbvias, mas seu talento é exato: sua música consegue, de maneira quase não verbal, atingir o coração/alma do ouvinte, esteja este amando ou não.

É aqui que chego em "Coisa de Acender" (1992). Já não é mais o Djavan críptico e fechado de seus trabalhos anteriores: ele se abre como uma rosa para abraçar/alcançar o espírito de quem o escuta. Seu violão, antes único, agora vem acompanhado de uma guitarra maliciosa, e de uma percussão mais selvagem.

Eu diria que, neste disco, Djavan expande seus horizontes para além de suas esquinas. Ele dedilha os sentimentos e as sensações com a delicadeza de uma divindade, invadindo, explorando, separando as pequenas camadas das grandes coisas que acontecem quando a gente ama.

Um disco feito com carinho, com esmero, com um objetivo claro: Djavan reinventando Djavan, revisitando Djavan. Tão cheio de história, alimentou tantas memórias, tantos romances, tanto sofrer...

Um disco-patrimônio da humanidade que sabe amar ao som de música de qualidade.

Boa semana a todos. E, convenhamos: começar uma semana ao som de Djavan já é prenúncio de coisa boa.

Abraços do Ladrão de Almas.

terça-feira, fevereiro 17, 2015

The Art Of McCartney (2014) - Various Artists


Ainda na vibe dos Beatles, vou falar um pouco sobre as canções do Álbum de 2014 "The Art Of McCartney", onde grandes nomes da música internacional entregam versões de sucessos da carreira de Paul. Em sua maioria, obtiveram sucesso. Abaixo uma análise curtinha sobre cada uma das faixas.


Artistas que fazem seu tributo ao Paul neste disco.
Maybe I’m Amazed: Billy Joel – Sua versão ficou apaixonada e intensa. A voz melodiosa e o arranjo mais puxado deram uma roupagem mais rock à canção.

Things We Said Today: Bob Dylan – Deu sua cara à música. A voz rouca e o violão folk transformaram a música num rock light.

Band On The Run: Heart – Tão boa quanto a original (o arranjo inclusive ficou idêntico).

Junior’s Farm: Steve Miller – Achei fraca a versão. Não gostei.

The Long And Winding Road: Yusuf/Cat Stevens – Excelente, emocionada, clara e simples.

My Love: Harry Connick, Jr. – A canção apresentada pelo crooner ficou com cara de clássica.

Wanderlust: Brian Wilson – profunda, sincera e bela, como todo o trabalho de Wilson.

Bluebird: Corinne Bailey Rae – Doce e sensível, com sua voz inesperada. Linda versão.

Yesterday: Willie Nelson – Entrega o que se espera – uma linda versão, feita praticamente apenas com voz (grave e melodiosa...) e violão (o acréscimo do acordeon foi um toque de genialidade).

Junk: Jeff Lyne – Conseguiu captar o sentimento do Paul na música, rica em texturas e camadas.

When I’m Sixty-Four: Barry Gibb – Conseguiu deixar a música linda como a original, cheia de amor e reverência.

Every Night: Jamie Cullum – Claramente amadurecido, entrega uma versão poderosa e contida.

Venus And Mars/Rock Show: Gene Simmons & Paul Stanley – Uma sonoridade misteriosa, rica e profunda.

Let Me Roll It: Paul Rodgers – Com sua voz estratosférica e muitas guitarras, faz um rock insano, cheio de entrega.

Helter Skelter: Roger Daltrey – Entrega uma Helter Skelter com cara de Classic Rock, na medida certa entre controle e insanidade.

Helen Wheels: Def Leppard – Um rock com pegada de anos 1960, rapidinho e agradável.

Hello Goodbye: The Cure & James McCartney – Rica em múltiplas sonoridades, essa versão consegue ser tão divertida quanto a original, com uma pegada leve de punk rock.

Say Live And Let Die: Billy Joel – Grandiosa como a original, mas modernizada. A voz de Joel entrega um componente de loucura que não existe na de Paul. Excelente.

Let It Be: Chrissie Hynde – Uma linda versão, sincera e pura, cheia de reverência. A voz falhada de Chrissie dá um toque diferenciado de beleza.

Jet: Robin Zander & Rick Nielsen – Gostei desta. Não inventou demais, respeitou a original. Mantém a mesma energia. A dupla beneficiou a música.

Hi Hi Hi: Joe Elliott – Uma canção dançante, executada com um arranjo que privilegiou a voz e a interpretação de Elliott.

Letting Go: Heart – Puro Rock ‘N’ Roll, feita por quem sabe. Souberam inovar sem desfigurar a original.

Hey Jude: Steve Miller – Ele estragou a segunda canção do disco. Não tem voz. O arranjo é pobre. Ele é um cocô cantando.

Listen To What The Man Said: Owl City – Achei pop demais a versão. Não gostei.

Got To Get You In My Life: Perry Farrell – Muito boa. Rica nos detalhes, com um arranjo bacana cheio de metais. Tão boa quanto a original.

Drive My Car: Dion – Inovaram nos arranjos e na interpretação, mas ficou tudo bem. Gostei da cara diferentona da canção.

Lady Madonna: Allain Toussant – nunca gostei muito de “Lady Madonna”, então essa para mim tanto fez. Não é grandes coisas.

Let ‘en In: Dr. John – Não gostei dessa versão. A música é colorida de mais, e a voz do Doutor é muito monocromática.

So Bad: Smokey Robinson – Aqui não tem como errar. Muito boa. Smokey detona e canta uma versão tão linda quanto a original.

No More Lonely Nights: The Airborne Toxic Event – Belíssima versão. Emocionado aqui. A mais bela do disco.

Eleanor Rigby: Alice Cooper – Outro que soube permanecer fiel ao original, ainda que dê sua cara sombria à música. Ficou muito boa.

Come And Get It: Toots Hibbert & Sly & Robbie – Muito bom! Animada e bonita, balançante com uma pegada de reggae.

On The Way: B. B. King – Também não há como dar errado. King e Lucille entregam uma belezura interpretada com paixão.

Birthday: Sammy Hagar – Muito boa! Tão bacana quanto a original.

Can’t Buy Me Love: Booker T. Jones – Excelente versão instrumental! A energia está toda lá. (música bônus).

P.S. I Love You: Ronnie Spector – Uma linda versão meio vintage desse clássico. Excelente. (música bônus).

Setlist.
No geral, um bom disco como curiosidade, mas irrelevante para o trabalho de Paul. Ou para a apreciação dos fãs.


Abraços e até a próxima.