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terça-feira, dezembro 06, 2016

Pete's Dragon 2016



Havia algo sobre Pete's Dragon (Meu Amigo Dragão - Brasil), uma qualidade que não consegui identificar no início, algo que fez-se  sentir diferente de quase todos os outros grandes filmes de verão americano, e sua presença era tão sutil que levou um tempo para descobri o que era: o silêncio.

O silêncio da floresta.

O filme é um remake da animação musical de David Lowery produzido pela Disney, de 1977, sobre um menino e seu melhor amigo: um dragão que pode ficar invisível. É o segundo filme deste verão americano ao lado de de BFG de Spielberg para crianças com idade entre sete e dez anos (e para adultos que ainda podem se lembrar qual era a sensação de ter essa idade), mas que falhou um pouco mesmo tocando alguns dos mesmos acordes emocionais da obra prima de Spielberg, ET. O filme de Lowery também deve um pouco para Spielberg em geral e ET em particular (O dragão é chamado de Elliot, o nome do herói de ET, não há um personagem adulto chave do tipo que está ai ao lado das crianças, e as partes mais ousadas em ação e excitadas da obra, são pontuadas pelo som de Daniel Hart a lá John Williams). Há acenos para outros filmes que são outras flexões da obra de Spielbeg, incluindo The Iron Giant/O Gigante de Ferro (outro filme sobre uma criança e uma criatura situado numa floresta primitiva). Mas pode ter mais em comum com os filmes de Terence Malick (A Arvore da Vida, Cavaleiros de Copas, Além da Linha Vermelha, etc) um poeta hippie, cristão transcendental que não tem medo de colocar a trama em espera enquanto passeia com uma câmera, permitindo-nos experimentar uma visão rarefeita do mundo natural. Os insetos zumbindo e as corujas piando na copa das arvores.

Lowery incorporou Malick no longa de 2013 Aint's Them Bodies Saints/Amor Fora da Lei e novamente em Pete's Dragon, embora ele tenda a se afastar de qualquer coisa que possa lhe acusar de ser muito artístico. A floresta e seus animais se sentem presente fisicamente, de uma forma que raramente experimentamos nessa era pós-analógica da tomada de filme. Você ouve pássaros gorjeando, a correnteza dos rios, o ranger do vento nos ramos das arvores. Você começa com um agradável olhar sobre as copas das arvores e finda em adoráveis pores de sol. E você aprecia os ruídos característicos que o dragão faz quando se move e arrasta a barriga escamosa-peluda no chão da floresta, ou o desdobrar de suas asas como o barulho de velas de uma escuna se estendendo. Ele não soa como o ruido de monstros de desenhos animados. Eles são como a memoria de uma criança para um cão amado que era realmente grande, ou parecia grande porque ele estava sempre perto. Elliot é uma criatura magica, mas mais que isso, ele é um animal muito grande, inteligente e cheia de sentimentos. Ele não se move como tantos animais criado em CGI para o cinema contemporâneo. Ele se move como um dragão de tamanho médio se moveria se ele realmente existiu, como os dinossauros de Juarassic Park. E quando ele olha Pete no olho, você sente que há uma personalidade lá. (Este é um filme top sobre dragões, a proposito, embora a minha criança interior insista que o dragão de Dragonslayer/O Dragão e o Feiticeiro de 1981  ainda é o melhor).

O enredo? Ah, certo. Não há muito, e talvez seja uma boa coisa que  não exista mais, porque o filme é executado em 1 hora e 42 minutos e se sente apenas um pouco mais que uma cantiga de ninar que superar as crianças que está destinada a encantar. O jovem Pete (Levi Alexander) está no banco traseiro de um carro durante uma viagem de férias com os pais para o noroeste do Pacifico, lendo seu livro favorito - "Elliot se Perde", quando seu pai em uma manobra para evitar bater um cervo acaba virando o carro e morrendo junto com sua mãe. Quando lobos na floresta ameaçam a criança aterrorizada, Elliot aparece como um anjo de guarda e o salva. O garoto se torna áspero e feroz em torno das bordas depois de cinco anos vivendo na floresta com o dragão, mas ele é doce e amável afinal, porque ele tinha um bom modelo.


Em seguida vem um trecho que trabalha como a sequencia do deserto na ilha em The Black Stallion/O Corcel Negro 1979, onde os dois únicos personagens são um menino e um cavalo. É cinco anos mais tarde, embora talvez não no presente; o filme é vago sobre a sua estrutura de tempo, mas a falta de tecnologias modernas sugere que é definido como antes dos anos 1990. Pete e Elliot estão se entendo como os personagens de O Livro da Selva. Eles brincam juntos de uma maneira que parece audaz e temerosa para quem não cresceu na floresta com um dragão como seu cuidador. Em uma imagem memoravel, o menino salta de um penhasco e o dragão mergulha de asas infladas como velas de uma embarcação para pega-lo, você pode dizer pela sua indiferença que não é a primeira vez quer ambos fazem isso.


No papel de velho sábio e contador de histórias que um dia adentrou o mundo magico do dragão, temos o Sr. Meacham (Robert Redford), ele é tido como o único que um dia viu o dragão. A besta tem uma mitologia local parecida com a do pé-grande ou o Yeti ou o Demônio de Jersey, mas é mantido vivo principalmente pelas histórias de Meacham. Sua filha Grace (a sempre estonteante ruiva Brice Dallas Howard), nunca viu o dragão, nem seu noivo Jack (Wes Bentley) ou sua filha Natalie (Oona Lawrence). Quando Grace encontra Pete vivendo em uma caverna ao pé de uma grande arvore e leva-o para um hospital, o filme entra no modo Frankeinstein-e-os-moradores. Irá Elliot salvar Pete da civilização? Irá Pete salvar Elliot de ser capturado e colocado em exposição como uma aberração da natureza, ou pior, a morte? Será que o dragão sopra fogo? Mamãe, quando é que o dragão vai cuspir fogo? (Não se preocupe garoto, eles não iam, colocar um dragão no filme se ele não tivesse que cuspir fogo).

Não há muito mais para se dizer do filme além disso, com exceção das contidas performances pontuais de seus atores (Redford e Howard especialmente), e isso parece uma escolha deliberada, uma intencional desconsideração com a formula comercial corrente, que você pode sentir exaltada pela leveza e inocência em exibição. Este é um daqueles filmes de tamanho médio com um grande coração e com muitos recursos familiar, o tipo de filme que pode fazer adultos se sentirem como crianças, sem fazê-los sentir-se crédulos demais ou estúpidos, e que pode entreter crianças mais atentas e pacientes simplesmente colocando um mundo memorável e personagens memoráveis na tela.

O senso comum diz que Hollywood não faz mais esse tipo de filme. Mas não é verdade. Os estúdios trazem um deles a cada poucos meses, e se eles são grandes ou meramente bons, eles não recebem trégua para uma claque que faz beicinho e olha atravessado para tudo que passa no mundo da fantasia. Nós vimos pelo menos três filmes live-action este ano, um foi Pete's Dragon, os outros foram BFG e Mogli O Livro da Selva. Todos eles mereciam uma melhor divulgação, mas apenas um  foi. Seria vergonhoso ver esse gênero de filmes desaparecendo dos cinemas em uma névoa como Elliot ficando invisivel

sábado, novembro 19, 2016

Captain Fantastic (2016)



Captain Fantastic, escrito e dirigido pelo astro de Silicon Valley, Matt Ross, apresenta uma família que se retira do mundo para viver na imensa e exuberante floresta do Oregon. Eles estão fora da grade, eles caçam e coletam para se alimentar e são auto suficientes. Um clã de seis crianças lideradas por seu pai carismático, Ben Money (Viggo Mortensen), um outdoorsman/filósofo. Eles estão totalmente desembaraçados de normas sociais e desconectados completamente do mundo digital. Decididamente eles estão fora do "mundo real". Eles são uma família Robinson Crusoé americana, ou como em um filme feito nos anos 1970, ela seria chamado de  "A Família Selvagem".


Ross explora o credo radical de Money e de sua família, fora do "mundo real", um modo de vida através de cenários, que as vezes falta nuances, mas que são no entanto, afiados e instigantes e que se completam muito bem dentro e fora uns dos outros para fazer um conto intelectualmente estimulante, e ainda totalmente acessível sobre a aventura de uma disfunção familiar. Ar fresco. Sem consumismo. Não ao materialismo. Ok, soa bem, mas insustentável. Tais utopias precisam de um líder forte, e seu pai Ben é. Ele trata seus seis filhos como se eles fossem recrutas militares (bem como doutorandos em disciplinas de alto conhecimento). Porque eles são crianças, e porque eles foram exilados de outras influências, eles são como papagaios que repetem para si mesmos suas palavras e eles compartilham sua visão de mundo, sem dúvida. 


E como em uma família cult, tudo isso é extremamente intrigante se chamarmos a mente filmes como A Costa do Mosquito de 1986 (The Mosquito Coast), ou O Peso de um Passado de 1988 (Running on Empty), que tiveram atmosferas semelhante de famílias enclausuradas, e carismático controle (ainda que bem intencionado) dos pais. Mas Captain Fantastic trata a situação (e Ben) de forma acrítica, e assim por simpatia, é que há uma total desconexão entre o que está na tela e o que Ross pensa estar na tela.

Quando o filme começa, a mãe deste pequeno clã, Leslie (Trin Miller) foi hospitalizada para tratar de um distúrbio bipolar, deixando o pai como o capitão do navio. Encontramos todos eles realizando um treinamento de sobrevivência e exercícios de campo em que o filho mais velho realiza um rito de passagem para a idade adulta. Ele caça e mata um servo com as próprias mãos. A noite eles se sentam em torno de uma fogueira para ler livros sobre armas e alta literatura de autores como Dostoievski. Eles discutem o Capitalismo e teorias politicas como parte de sua educação formal soando como pequenos robôs. Através de um rigoroso treinamento físico e intelectual, Ben levanta seus filhos para serem super sobreviventes e verdadeiros reis filósofos, ensinando-lhes os fundamentos do combate corpo-a-corpo em um dia e celebrando a vida e os ensinamentos de Noam Chomsky no outro.



As crianças são, em muitos aspectos, absolutamente extraordinárias. Bodevan, o mais velho, recentemente abandonou os princípios do trotskismo e redefiniu-se como um maoista; a filha mais nova, Zaja (Shree Crocks) tem toda a carta da Declaração dos Direitos de 1689 (Bill Rigths) memorizada e ainda tem opiniões profundas sobre as recentes mudanças no legislativo norte-americano. As filhas adolescentes Vespyr (Annalisse Basso) e Kielyr (Samantha Isler) são na vida real o que Katniss Everdeens é para a ficção Jogos Vorazes enquanto o irmão mais pequeno, Nai (Charlie Shotwell) é um avido colecionador de crânios de animais. Ben desenvolve claramente um vínculo muito forte com todos os seus filhos, embora o filho do meio da ninhada, Rellian (Nicholas Hamilton) parece estar suprimindo uma medida considerável de ressentimento profundamente arraigado. A amargura de Rellian decorre da ausência da mãe devido ao seu colapso mental e seu consequente afastamento para o mundo exterior em busca de tratamento.

Os pais da esposa culpam Ben por toda a doença da filha e o proíbem de vir ao funeral. Ben, que desenvolveu sua vida para nunca ter que responder a alguém, coloca todos os filhos em um grande ônibus escolar e dirigem-se pra o funeral a fim de fazer valer o desejo de sua mulher de receber uma cerimônia budista de cremação. É uma longa viagem parando apenas uma vez para roubar suprimentos de um supermercado (eles já tinham realizado um exercício sobre isso anteriormente), e uma vez para o ritual anual da família: a celebração do dia de Noam Chonsky, tudo de forma quase compulsória. A ironia
aqui, e isso é terrível, é que Ben está levando essa crianças a questionar o status quo e o sistema, para não engolir qualquer informação por atacado, e ainda assim ele cria um ambiente onde questionar sua autoridade é impossível.

A família para ainda uma noite para ficar com o casal Harpers e seus dois filhos, na verdade sobrinhos de sua falecida esposa. O choque cultural é extremo. Os filhos de Ben não sabem nada de cultura pop. Para ganhar o argumento de que seus filhos foram muito bem educados sem ir a escola, Ben convoca sua filha de seis anos de idade, para de improviso, argumentar com sua próprias palavras e entendimento sobre A Declaração dos Direitos (Bill of Rights), cujo proposito é envergonhar seus primos que foram educados na escola publica e não tem ideia sobre qualquer coisa. Uma criança despejando fatos  sobre A declaração dos Direitos é suposto ser adorável para uma comédia, bem como para um momento em família. Eu acho. Mas o que Ben estava sendo mesmo era um valentão hipócrita para com aqueles que o acolheram.

Capitão Fantástico faz bem bem em nos fazer conhecer mais algumas questões sobre um personagem como Ben. Bodevan, seu filho mais velho, sem que seu pai saiba, se submete aos testes para ser aprovado, e o é, em odas as grandes universidades do pais e Rellian, o rebelde, abertamente se opões ao controle do pai. Rellian faz uma escolha em um ponto que se sente como uma vitória, mas em seguida ele recua, desculpando-se com o seu pai pela sua desobediência. Para seu pedido de desculpas, Ben não diz: "Eu também sinto muito." Ele diz: "Eu te amo." É de se supor que ele está tocado não é?  Rellian tem apenas 10 anos de idade. Ele não tem nada que se desculpar, esse é o problema com Capitão Fantástico em poucas palavras.

Capitão Fantástico é tão suave com Ben, que quando Frank Langella mostra-se como pai de sua esposa, e expressa sua indignação com a maneira como ele educa os filhos, ele soia como a voz da razão, mas ainda assim o filme trata Langella como se ele fosse o vilão da história, um gato gordo de auto-satisfação, objeto do emblemático ódio de Ben e sua esposa (es suas crianças drones). "Olhe para o uso antiético de todo esse espaço!" è o que diz uma das filhas de Ben, ao ver o espaço onde mora o avô.

As crianças são todas excelentes, e criam uma unidade familiar crível. Mortesen dá matizes dobradas de autoridades e de um Ben suave, transparente, especialmente quando ele incentiva seus filhos a pensar com os seus próprios pensamento. (A cena em que ele força sua filha a ir mais longe em sua análise literária de Lolita é algo muito agradável de ver). Mortesen é um ator tremendamente poderoso, e ele pode fazer mais em um único close-up do que a maioria de outros atores conseguem com seus corpos inteiros. É a atitude do filme que é um problema.



Jean-jacques Rousseau não foi o inventor da a ideia de voltar a natureza como um bem. Isso tem haver com os seres humanos desde Adão e Eva brincando em um certo jardim. O raciocínio é: Se os seres humanos poderiam "voltar à natureza", então talvez todos os problemas do mundo poderiam ser erradicados. Mas há um erro nesse tipo de pensamento. Os cidadãos pobres dos países subdesenvolvidos economicamente já vivem em um estado "natural", sem água corrente, praticando agricultura de subsistência e sem acesso as modernidades da medicina, para falar de apenas algumas coisas. Eles provavelmente poderiam dizer aos hippies uma ou duas coisas sobre como a "natureza" em seu estado bruto não tem grandes atrativos diante de um banho e uma cama quente. Mas a mentalidade persiste e cruza linhas ideológicas. Há os Amish e os menonitas. Existem os "survivalists" escondido com os seus arsenais e teorias da conspiração. Há as radicais ramificações do Cristianismo favorecendo a homeschooling, e a priorização de "estar no mas não ser do mundo". Jonestown é o exemplo mais perigoso do que pode resultar de um retiro do mundo, mas há outros casos com consequências igualmente devastadoras. A sociedade não é o problema. O homem é o problema. A utopia só pode funcionar se ela for composta de uma única pessoa. Quando a segunda pessoa aparecer por lá você já vai ter problemas.

Se Ben era para ser uma espécie de "Jesus Camp" mergulhado em uma marca politica de cristianismo, preparando seus filhos para um certo arrebatamento apocalíptico, teria seu comportamento  que ser apresentado aqui como adoravelmente excêntrico? Teria o filme que apresentar um pai-sobrevivente escondido com seus filhos e armados acriticamente? Só porque Ben é um canhoto não significa que ele seja um idiota. É a mesma mentalidade com uma roupagem ideológica diferente. O filme poderia ter usado mais a ferramente do ceticismo

sexta-feira, julho 29, 2016

Batman - A Piada Mortal - Animação (2016)


Desde sua estreia nos quadrinhos em 1939 Batman tem emergido como um dos super-heróis mais culturalmente relevante e amado de todos os tempos. Suas aventuras resultaram em filmes, séries animadas, videogames e diversas outras plataformas multimídias, que tem expandido sua popularidade para praticamente toda uma demografia planetária e, por conseguinte, Gotham City foi reinventada em tudo, desde o "BAM! POW!" da séries de TV dos anos 1960 a ninhada Dark Knight da trilogia do Nolan. No entanto, apesar da onipresença do justiceiro de capa através da cultura pop, algumas de suas histórias se tornaram tão controversas quanto o próprio Batman

A Piada Mortal - a graphic de 1988 novel escrita pelo criador de Watchman, o genial Alan Moore e o ilustrador Brian Boland - tenta lançar alguma luz sobre o misterioso passado do Coringa, explorando o próprio conceito do que poderia levar uma pessoa loucura. Durante anos, a possibilidade de uma adaptação animada parecia ser nada menos que um sonho, especialmente devido a natureza particularmente obscura do material de origem. No entanto, os fãs (os de longa data como o ator Mark Hamill, um entusiasta de A Piada Mortal) finalmente tem a chance de ver o conto de Moore ganhar vida com um filme de animação de 76 minutos, que é a mais recente entrada no Universo DC.

Para tal história do Joker definitivo não há melhor pessoa para o papel do que Hamill, que se destaca como um dos maiores atores de sempre, assumindo papeis (animados ou não). Para A Piada Mortal, o icônico astro de Star Wars é acompanhado pela co-estrela Kevin Conroy como Batman, reunindo o duo cuja química periodicamente iluminou vários projetos, desde Batman: The Animated Serries no inicio dos anos 1990. Também para o passeio temos a veterana atriz Tara Strong (no papel central de Barbara Gordon - a Batgirl) e Ray Wise como Comissario Gordon.

Enquanto grande parte do filme recria fielmente a historia de Moore/Bolland (incluindo um número musical em linha reta dos quadrinhos), o diretor Sam Liu e o roteirista Brian Azarrello prefaciam o enredo Joker com uma meia-hora centrada apenas na dinâmica entre Batman e Batgirl. Quase imediatamente após a estreia do painel The Killing Joke na Comic-Con, em San Diego os fãs começaram a condenar este prólogo como desnecessário e até mesmo como sexista, e essa indignação não é totalmente injustificada.

É justo criticar o prólogo Batgirl como uma decisão calculada projetada para prolongar o tempo de exibição. Apesar de tudo, está abertura não tem nada a ver com a história do Joker, que forma uma desconexão com o resto do filme. Pior ainda, as implicações para esta seção para onde leva a relação Batman/Batgirl - embora em uma alusão a trabalhos anteriores - complica a história de maneira que fazem um desserviço redutor para Barbara Gordon como um personagem. Em alguns aspectos, o prólogo permite A Piada Mortal ser uma história muito mais sobre como ser Batgirl, pois são de Batman e do Coringa as ausências mais sentidas. O Príncipe Palhaço do Crime fica ausente por quase metade do filme e faz com que os laços com a narrativa principal tenha impulsos muito tênues.

Se os realizadores resolvessem simplesmente desenvolver o papel de Batgirl na história, eles provavelmente teriam enfrentado uma reação ainda mais veemente da comunidade de fãs. A breve aparição do personagem no texto de Moore é um dos eventos mais divisivos da história dos quadrinhos por ter um bocado de violência - a natureza do que é realmente esclarecido um pouco nesta versão - ser Barbara Gordon/Batgirl a única presença feminina real do filme teria fornecido um conjunto completamente diferente de problemas. Tal como está, o papel de Batgirl na história faz pouco para fortalecê-la de forma limitada e prova que ela é muito mais multifacetada do que o apresentado no material de origem. Forte é, como sempre, ótimo no papel, elevando o material tanto quanto ele pode.

Embora seja o prólogo a fonte de quase todos os problemas do filme, ainda não pesa demasiado para levar A Piada Mortal para baixo uma vez que a ação finalmente se move em território familiar. O filme é quase perfeito em muitos níveis. A escrita corta notavelmente perto do trabalho de Moore e o estilo visual frequentemente monta paíneis perto do trabalho de Bolland, incluindo algumas da imagens mais arrepiantes e icônicas do próprio Coringa. Hamill com sua voz, finalmente terá a chance de trazer sua visão distinta e amada para o Coringa para essa histórias ser tão arrebatadora quanto parece, e seu trabalho pode estar entre o seu melhor como personagem.

Os espectadores podem discutir se esta segunda parte do filme faz jus à promessa realizada nas páginas dessa história clássica, mas o resultado final demonstra um verdadeiro esforço para transpor a sua complexidade narrativa e peso temática para a tela. Para a maior parte, A Piada Mortal sucede a esse nível e faz um comentário negativo sobre a luta sem fim entre Batman e Coringa. Os fãs da graphic novel vai ficar feliz em saber que o seu final ambíguo permanece intacto, enquanto os espectadores que não estão familiarizados com o material de origem provavelmente serão frustrado pelos momentos finais do filme. Em qualquer caso, não se pode culpar o filme por sua determinação em manter esse finale fortemente debatido apenas a maneira de que Moore escreveu, visto que é um dos finais mais difíceis na história dos quadrinhos. Tal como acontece com outras adaptações servilmente fiéis, A Piada Mortal é improvável para converter qualquer um que não tenha especial cuidado antes da história começar.

Muito tem sido dito sobre como Batman: A Piada Mortal  marca o primeiro filme animado R-rated com base no universo DC Comics, bem como o primeiro filme Batman R-rated. Sem dúvida Warner Bros. foi animada em tomar este caminho pelo sucesso recorde de Deadpool e é provável considerando uma abordagem semelhante dois gumes para Ben Affleck anunciados filme solo de Batman. A Piada Mortal não pode ser o que os fãs da obra estava esperando - graças quase totalmente ao material novo preocupante - mas há pregos suficientes sobre o seu material de origem para esperar que a Warner Bros e DC não se coíbam de adaptar essas histórias mais escuras para filmes no futuro.

sexta-feira, junho 10, 2016

O Futuro é agora, quase!


Na cultura popular, histórias de ficção cientificas parecem mais com o mundo do que nunca.

Um amigo que foi ver Perdido em Marte no cinema me contou o seguinte: Ele se encontrava sentado nas proximidades de uma mulher que, durante os créditos, inclinou-se e sussurrou para seu companheiro: "você sabe se este filme é baseado em uma história verdadeira?" Seria fácil sentir-se superior a este ser desinformado, que parece não ter consciência que os humanos ainda tem que pôr o pé em Marte. No entanto o erro parece um pouco mais compreensível quando você considera como o contemporâneo de ficção científica se afastou em direção a plausibilidade e familiaridade. Perdido em Marte pode ser um filme de Ridley Scott, mas ao contrário de outras odisseias espaciais do diretor, Alien e Prometheus, ou mesmo Blade Runner, são filmes que em tudo evocam, por vezes, lugares distantes e lugares mais estranhos e frios com que pode ser informado ao protagonista de Perdido em Marte a má noticia de ele está preso no planeta vermelho.

Há ainda uma abundância de filmes que continuam a tradição do gênero com mundos realmente fantásticos: Mad Max: Estrada da Fúria, Expresso do Amanhã, e claro Star Wars: O Despertar da Força. Mas, recentemente, esses exercícios em forte futurismo parecem ter sido superados em número por esforços de narrativas mais modestos e especulativos, imaginando um momento que parece quase antecipar e cruzar o próprio presente. Em comparação com muitas das obras canônicas da ficção científica do passado (Planeta dos Macacos, Duna, 2001 uma Odisseia no Espaço, Enders Games, Mad Max 2:Road Warrior), as visões do futuro reformam suas instalações em filmes recentes com Ex-Machina, She e Gravity, ou séries como Orphan Black, Black Mirror que se sentem positivamente cautelosos quanto ao seu âmbito de previsão. É como se o gênero tivesse sido atingido por alguma combinação de ambição e de contenção: o desejo de prognosticar, mas não ultrapassar, para alcançar presciência máxima com o mínimo risco. O resultado é um gênero menor investido na criação do mundo per se, mas em  do que sua aceleração.

Muitas novas obras de ficção científica parecem representar uma cepa de pré cinema apocalíptico, caracterizada por uma vontade de dramatizar desastres que são menos hipotéticos do que pronto para acontecer. Ambos Ex Machina e She, por exemplo, se desdobram contra panos de fundo, cujo projeto de produção sugere que os espectadores estão a assistir uma versão levemente futura da vida no século 21. No entanto tecnicamente ficcionais os aparelhos em exibição os avanços do filmes imaginando uma inteligência artificial, um teste de Turing aprovando uma personalidade robótica, não apenas como possível, mas altamente provável. Como declara o parcialmente louco cientista: "a chegada da IA forte tem sido inevitável por décadas" A variável foi quando conhecemos She, de Spike Jonze, que nos apresenta sua mudança de paradigma, humanos se apaixonando por maquinas. Ao contrario  de o Exterminador do Futuro e a franquia Matrix, esse filmes não preveem uma "ascensão" apocalíptica de maquinas, mas uma aquisição digital gradual, a próxima fase de uma revolução já está em andamento.

Como tal, para os mundos dos mais recentes filmes de ficção científica pode se olhar e sentir-se diante de algo estranhamente familiar. As cenas de abertura de Interestellar que apresenta cidades quebradas, similares a algo filmado na era da depressão, leva inicialmente, os espectadores a suspeitar de que esta diante de alguma coisa do passado recente, Nolan silenciosamente nos conduz ao que parece ser uma realidade bastante comum. É ficção científica com um desconfortável anel de verdade. É possível que tais configurações-realistas, também vistas em Ex-machina e She, sirvam como elementos extremamente moralizantes para lembrar ao publico que a distopia está próxima.

No entanto, esses são dificilmente contos de advertência de alguma coisa, eles são desapaixonados sobre o fim da humanidade que eles tratam como uma conclusão na sua maioria precipitada. Dito isto, é difícil negar que a proximidade da desgraça não aumente o seu impacto. Em seu estudo sobre filmes de ficção cientifica, Vivian Sobchack sugere que o que distingue horror de sci-fi é que o último "não produz o terror evocado por algo já presente e conhecido em cada um de nós, mas o mais diluído e menos imediato no que ainda podemos nos tornar. É possível mudar os contornos do gênero para muda-lo em um medo mais potente".

Um caso em questão pode ser a série antológica britânica Black Mirror. Como seu antecessor espiritual The Twilight Zone (Além da Imaginação, no Brasil), a série é inquietante, porque precisamente a sua bizarrice ocorre no que parece ser a sua maioria de vezes o aqui-e-agora. A premissa do seu terceiro episódio, por exemplo, é que a maioria das pessoas possuem uma tecnologia wearable (o conceito de tecnologia vestível) chamada de "grão" que registra todos os seus movimentos. É um amalgama da próxima geração de FitBit com Google Glass. Da mesma forma, o cenário explorado na segunda temporada, estreia-se um software que pode fazer a engenharia reversa dos avatares de um falecido à partir de e-mails e atividades onlines que parece viável o suficiente para elevar o níveis de paranoia de qualquer espectador.

Como Black Mirror, a série de TV canadense Orphan Black borrifa coisas significantes do mundo real de dramas de relacionamentos de policiais mal humorados em um universo que também gira em torno de clones humanos, e uma vasta conspiração bio-militar. Embora alguns dos momentos da série tenha lugar dentro de salas hi-tech de uma clínica de reabilitação, onde funcionários de jaleco branco conduzem sequenciamento genômico rápido, o que é notável é como casualmente os personagens consideram tais atividades normais, Não é toda série, afinal de contas, que consegue justapor um longo arco de temporadas sobre um culto anti-clone com uma subtrama envolvendo um personagem numa clínica reabilitação. Orphan Black e Black Mirror tem em comuns as suas premissas bizarras: a sensação é de se estar assistindo claramente um título de jornal do próximo ano, ou mesmo de amanhã.

Em outras palavras: Por que este aumento nas histórias de um futuro próximo, e por que agora? Uma possibilidade é que a verossimilhança permite um melhor comentário social, garantindo que os paralelos entre o mundo ficcional e o real vão passar desapercebidos. Para todas as suas complexidades, é difícil não ver alguns dos romances de Dave Eggers como uma fábula techo-pessimista (Como o tema original de Mas Max, o caos inicial poderia ter lugar na próxima terça-feira, Mas é um romance de Dave Eggers, The Circle que pode produzir o maior choque de reconhecimento. O romance detalha o surgimento de uma tecnocracia global que inaugura um um mundo totalitário de característica de vigilância absoluta. É o que é o mundo pan-óptico digital completo? Ainda não, mas já há alguns dispositivos modernos como câmeras corporais, drones e redes sociais. O apocalipse é agora). Se o sci-fi é um gênero que ha muito tem dado cobertura resistente para crítica social, também é possível que a fantasia excessiva pode enfraquecer o seu impacto. É útil aqui considerar Ex-Machina ao lado de Blade Runner, uma entrada muito cedo no gênero replicante-desonesto. Ambos os filmes, é claro, confirmam os piores temores das pessoas sobre a singularidade. Mas só no mais recente filme é que o evento apresenta-se como algo que pode realmente, você sabe, acontecer. Só é preciso um bilionário tech-salvador e uma distopia urbana para o bunker do despovoamento subterrâneo ser necessário.

Em A Imaginação do Desastre, um ensaio de 1965, Susan Sontag nos apresenta uma possibilidade diferente. Nele, ela argumenta que o filme de ficção científica deve ser entendido como um "emblema de resposta inadequada", ou um subproduto da incapacidade humana de lidar com o "impensável". Se o fato de que o sci-fi parece agora ser uma manipulação de tais cenários mais concretamente, então pode ser visto como um sinal de progresso? Ou é essa insistência no concreto (ismo?) é apenas um sintoma de que o sci-fi luminar, William Gibson vê como o fim da especulação o colapso da imaginação em uma realidade que  já superou isso? Em outras palavras, talvez escritores tenham razão e os cineastas estão menos inclinados a imaginar novos "desastres" já que estão adaptando para tantas pessoas. Como disse Gibson em uma entrevista de 2007, "Eu tenho que descobrir o que isso significa para tentar escrever sobre o futuro num momento em que todos nós estamos vivendo na sombra de pelo menos uma meia duzia de cenários descontrolados de ficção científica.

Pode não haver mais forte confirmação da noção de que a realidade está mantendo o ritmo com a fantasia do que a chegada, no ano passado de uma data auspiciosa: 21 de outubro de 2015, o dia em que o filme De Volta para o Futuro II elegeu para representar o futuro. O que em 1989 parecia impossivelmente distante, de repente chegou. Mas o que impressionou muitos observadores não era a visão dissonante do que de passava na era Regan, de Robert Zemeckis, era em vez disso, a sua surpreendente semelhança com a realidade pós-milênio e pode ser que o publico contemporâneo se encontrem em uma posição não muito diferente do protagonista do filme, Marty. Hoje em dia, não importa onde as pessoas se voltem, elas não podem deixar de funcionar em seus futuros


quarta-feira, maio 25, 2016

The Witch (2016) - Explicando o final




The Witch é uma daqueles tipo especial de experiências de terror ao se ir ao cinema. Em vez de depender de saltos de sustos, grandes quantidades de sangue, ou o tipo de emoções baratas que espelham se estar em um parque de diversões, o diretor Robert Eggers em sua estreia impressionante pegou o publico desavisado e o transportou para New England de 1630. Passeando com as vidas modestas de seus protagonistas calvinistas, The Witch leva seu tempo deliciosamente mexendo o caldeirão e, muito lentamente, aumentando o calor demoníaco até que nos os últimos momentos você percebe como as coisas estão preste a se tornarem monstruosas.

Enquanto o filme não pode ser, em última instância para todos, ele é uma experiência cinematográfica inegavelmente única que se sente autenticamente arcaico em suas superstições, mas modernos em sua implicações sombrias sobre a opressão, a misoginia, e os frutos amargos a cargo da desconfiança. Ele também tem um bebê que se transforma em uma lavagem de corpo carmesim,para corvos sedentos com fixações orais agudas e um bode falante que convence uma garota a vender sua alma.

É uma estréia triunfal para Eggers com um final que na verdade envia arrepios na espinha quando afunda em sua gravidade.


Com isso dito, há também aparentemente, alguma apreensão em linha sobre o porquê de uma boa menina cristã que viu sua família ser abatida por bruxas satânicas e então se junta aos seus assassinos Como poderia alguém não apenas criado para ser um puritano, mas também tão visivelmente vivendo por todo tempo esse ideal, literalmente, sucumbir ao diabo, entregando-se de corpo e alma ao seus encantos duvidosos poucas horas após a escuridão ter tomado uma forma da besta e pessoalmente abatidos seus pais?

Muito honestamente, é o resultado único, dramaticamente satisfatório e facilmente trágico que poderia ocorrer nesse pesadelo perverso...

Primeiro deixe-me dizer que Thomasin é maravilhosamente interpretada pela atriz estreante Anya Taylor que faz mesmo seu personagem como uma boa menina, ou pelo menos ela realmente, realmente quer ser uma. É por isso que ela é tão cheia de auto-aversão antes mesmo de sua família ir para cima dela. De fato, desde a primeira cena, Thomasin é a única ovelha no seu rebanho a expressar um desconforto visível e grave sobre a sua expulsão da comunidade em que eles habitam. Ela é a última a deixar a igreja da qual seu pai William (Ralph Ineson) tem procurado a separação, e ela é única a olhar para trás, quase implorando por sua chance de ficar na colonia incipiente.

Isso é enfatizado em sua primeira cena com o dialogo, onde vemos Thomasin orando a Deus. Antes mesmo de os horrores de forças sobrenaturais assediarem sua família, Thomasin está cheia de duvidas sobre sua fé e seu merecimento para o reino dos Céus. No entanto, ela anseia pelo amor de Cristo e implora por sua misericórdia e sua graça afim de salvar sua alma dos tormentos ardentes. Implicitamente, ela também está pedindo para ter sua fé restaurada e ser feliz mesmo com seu pai escolhendo o espirito livre de ir em bora rumo a território desconhecido.

Após esse ponto, ela é marcada para ser uma aquisição do Diabo. Sim tudo nessa fantasia aponta sobre como Satanás, sob o disfarce de um bode preto chamado Phillip junto com seus seguidores, irão recrutar a jovem virginal e de coração puro para o clã das bruxas.

E a razão pelo qual ela é um alvo tão fácil é que ela é uma estranha em sua família desde que ela anseia pelo "luxos" da comunidade e, da sua terra natal Inglaterra, cujos encantos e belo vitrais ela descreve para seu jovem irmão Caleb (Harvey Scrishaw) sem que esse compreenda o que ela fala. Essa capacidade de cobiçar calmamente as coisas do mundo é também a razão pela qual ela odeia a sua própria fraqueza e, em um certo nível, é o que faz sua família odiá-la também, e portanto são as origens das fantasia de sua pequena irmã Marcy (Ellie Grainger) sobre ela vender sua alma a satanás e comer carne. A ironia é claro compensa o final amargo.

Quanto ao porquê dela terrivelmente tomar a decisão de se despir para Phillip e depois assinar o seu nome no livro de contabilidade do Diabo em seu momento de fraqueza e desespero: era a única opção que existia em sua mente.

Thomasin amava sua família e não tomou nenhuma alegria ou consolo por sua morte. Mas ele não deixam de ser morto e Thomasin esta sozinha. Assim o que ela tem são uma serie de opções terríveis.

Ela pode:

1. Morrer de fome na fazenda abandonada.

2. Morrer possivelmente enquanto tenta voltar a Comunidade a pé.

3. Ou enfrentar as possíveis acusações de ser uma bruxa após chegar a Colonia e explicar que sua família foi morta por forças sobrenaturais (e por sua própria lâmina, no caso de sua mãe). E, novamente, a morte é o resultado provável. Basta perguntar para um puritano e os 20 descendentes desta geração, que foram executados 60 anos mais tarde.

Mais talvez o mais contundente de tudo na mente de Thomasyn é a ausência da presença de Deus em sua vida. Ela rezou implorando por sua graça e presença, e em vez disso ela viu sua família traí-la e depois morrer. Com exceção , seus irmão gêmeos mais novos traziam o falso testemunho contra seu caráter, seu pai revelou-se um hipócrita arrogante que envenenou a mãe contra sua filha, deixando Thomasin assumir a culpa por uma taça de prata roubada o que levou a sua mãe acreditar que Thomasin era puro mal.

Ela viu o manisfesto poder de Satanás com efeitos devastadores na fazenda, e se viu perdida no escuro como resultado. E, o pior de tudo para um puritano, Thomasin provavelmente acreditava que havia quebrado seu pacto com Deus por tirar a vida de sua mãe. Katherine (Kate Dickie) estava tentando estrangular sua filha até a morte em uma fúria demente e irracional, mas a auto-defesa é uma nuance legal que, provavelmente, seria estranha para uma jovem do século 17 puritano, e que acreditava que havia cometido um pecado irreparável aos olhos de um Senhor indiferente.

Tudo isso não quer dizer que o que ela fez é certo ou que Deus a tinha abandonado. Na verdade, é bastante e miseravelmente trágico que, em um ato de desespero ela virou as costas para um Deus por algo parecido com os desejosos encantos de um vestido bonito ou viver deliciosamente. No entanto, essa á a outra força do final do filme.

As crenças puritanas da sua família oprimem e marginalizam Thomasin, eles estavam dispostos a vendê-la a outra família em parte devido ao desdem e depois, também pelo desaparecimento de Samuel, mas também porque eles não confiavam implicitamente em sua sexualidade. Em virtude do seu sexo e idade, Thomasin estava crescendo em uma sensualidade muito jovem principalmente, cujos os apelos desejosos se punham a distrair o jovem, e solitário Caleb. Isso fez-lhe torna-se um fardo para seus pais e algo para ser cauteloso em se ter em um lar cristão.

Mais ao assumir o diabo para sua cama proverbial, Thomasin tem permissão para se sentir livre e ser aceita no circulo/parentesco de outras mulheres igualmente libertadas que vivem na floresta. A magia com que seu novo mestre as levanta, aparentemente causa um prazer físico e selvagem e traz ecstasy para todas as mulheres presentes, é uma forma de aceitação se lembrar-nos que Thomasin não tem mais casa.

Ela se tornou uma bruxa em parte porque suas crenças eram tão fervorosas que na ausência de um pacto religioso, Thomasin procura imediatamente uma alternativa de ser o único tipo de substituição que ela conhecia. É a cultura que gerou nela o sentimento de ser mansa, submissa, e iminentemente culpada devida ao seus sexo que a empurrou para ser o que ela mais temia: feminina e perigosa. Assim, a nossa compreensão, de quem habita o século 21, sobre os medos medievais e modernos sobre a "bruxaria" (Leia-se mulheres fortes) nos informa sobre um sonho febril de um pesadelo retirado das superstições mais horrivelmente perversa dos puritanos.

No entanto, se não tiver inclinado a ver o filme como um(a) pró-feminista, considere por um momento outra lenda pré-puritana antiga sobre bruxas...

As primeiras visões que conhecemos sobre o vôo de bruxas (em vassouras ou não) remonta ao século XIV. Embora hoje em dia, acredite-se que o conceito venha de mulheres que ficaram poderosas usando receitas de ervas, possivelmente alucinógenas, os promotores do clero de então acreditavam, que as bruxas podiam voar aplicando uma pomada especial sobre suas vassouras que era obtidas da gordura de crianças cozidas.

Agora, no final de The Witch, há uma omissão flagrante sobre o que aconteceu com os jovens irmão de Thomasin; os gêmeos que a velha bruxa roubou na noite em que o velho bode assassinou sua família. Os gêmeos nunca mais são vistos novamente. Podemos deduzir, pelo tempo em que Thomasin chega na floresta, ao clã das bruxas, há uma enorme fogueira que arde com o claro efeito de fazer as bruxas voarem.

Assim se supõem que a libertação e o êxtase sensual de Thomasin vem do fumo da carne de seis irmãos mortos. E um novo horror de infanticídio logo acontecerá para outra família se elas quiserem permanecer jovens e deliciosamente bonitas.


sexta-feira, maio 13, 2016

10 Cloverfield Lane (2016)


Aviso: Um filme de produção furtiva que só ficou conhecido depois de um trailer na rede. Trata-se de uma perspectiva forçada, mantendo-se nos escuro sobre o que exatamente está acontecendo, e eu vou pegar leve nesse review, mas se você não quiser se machucar clique para longe por agora e volte depois quando já tiver visto o filme.

10 Cloverfield Lane é um suspense apertado e tenso, realizado com as excelentes performances de John Goodman e Mary Elizabeth Winstead. Ele ecoa Alfred Hitchcock e HG Wells embutidos em um jogo de gato-e-rato após o fim do mundo como conhecemos. Sem reconhece-lo diretamente em formas de um grande sucesso tradicional, é uma sequencia do Cloverfield de 2008, um filme found footage sobre uma invasão alienígena. É mais como um spin-off do que um filme, imaginando um lugar na história em uma parte diferente do mundo, mas no mesmo universo. Considerando que o filme saltou sobre uma tendencia atual na sua abordagem (found footage), o filme do diretor Dan Trachtenberg se sente muito mais à moda antiga em seu estilo, lembrando os filme do gênero dos anos 1950 e 1960. O diretor e sua equipe não exploram alguns dos temas em potencial do filme tão profundadamente como eu esperava que fizesse e é menos visualmente atraente do que poderia ter sido. Mas isso é entretenimento sólido, um filme para mantê-lo tentando adivinhar o que esta acontecendo por 100 minutos e depois o trás de volta ao mundo para discutir o seu final.


Uma vez desenvolvido  o roteiro de The Cellar de Josh campbell e Matthew Stuecken (com um credito para uma co-história para o escritor de Whiplash, Damien Chazelle) foi adaptado para colocá-lo no mundo de Cloverfield. Então vemos como Michelle (Winstead) se afasta da vida de seu parceiro, deixando a chaves da casa e seu anel de compromisso sobre a mesa, ouvimos relatos sinistros sobre uma severa queda de energia na costa leste através do radio. Estas cenas de abertura são claramente projetadas para ser uma reminiscência de outra história de uma mulher que deixou a cidade para para o campo perigoso, Michelle fazendo as malas fara com que qualquer um que tenha visto Psicose de Hitchcok lembre-se de Marion Crane na abertura clássica. É como se Michelle estivesse se preparando também para encontrara o seu Norman Bates

Depois de um frenético e aterrorizante acidente de carro, Michelle acorda em uma sala vazia, acorrentada a parede. Ela logo encontra seu captor, uma figura imponente chamada Howard (John Goodman), embora ele afirme ser mais um salvador que um sequestrador. Ele viu o acidente de Michelle, assim como o céu explodindo. Houve um "evento" lá fora, e ele agarrou Michelle a tempo de levá-la para o bunker que ele construiu para tal ocasião. Poderiam ser os russos, os norte-coreanos ou os marcianos, mas, seja o que for, o ar provavelmente não vai ser respirável por um ou dois anos. E não é que Michelle está com sorte, ela tem comida suficiente, ar filtrado e outros suprimentos neste dia do juízo final, o que mais ela podia esperar?


Eles não estão sozinhos. Poucos antes de Howard fechar a porta do Bunker, um vizinho chamado Emmet (John Galagher Jr.) invadiu o seu caminho para entrar também, e ele forçou a sua entrada. Emmet que trabalhou para Howard na construção deste bunker, confirma o suficiente do que Howard diz a Michelle e ela começa a acreditar. Bem desempenhado pelo ator Emmet que se torna um ponto de pivô para o filme, alternando entre incentivar os medos de Michelle e afirmar que Howard é, pelo menos em parte o que ele diz ser. E quando ela vê algo horrível depois de uma abortada tentativa de fuga, ela se resigna com a ideia de que estes dois homens serão os últimos seres humanos que ela irá ver. Mas algo não está certo em Howard. Ele está controlado tudo em um nível desconfortável, especialmente quando se trata da dinâmica entre Michelle e Emmet. Há uma cena fantástica durante uma partida de um jogo de perguntas e respostas em que a misoginia de Howard é colocada sobre a mesa, e o filme mantém-nos a tentar adivinhar suas intensões até o final da partida.

Essa sensação de desconforto certamente está no script e Trachtenberg merece o crédito, é certo, mas é o desempenho de John Goodman que faz sua pele arrepiar. Ele captura um homem no limite da sanidade para quem o controle é fundamental. Ele não é um maníaco óbvio, como alguns outros atores teriam desenvolvido o personagem, mas alguem que pensa que é um anjo salvador, alguém que desempenha seu complexo de Deus controlador-arrepiante. Goodman nos mantem tentando adivinhar, permitindo vislumbre do homem, possivelmente o tipo que Howard era antes das coisas virem abaixo, mas ainda protegendo aqueles em um sentido de condicionalidade. Howard lembra tanto a Michelle e Emmet que ele salvou os dois que se começa a perguntar o que ele vai querer em troca.


Em termos de desempenho, Winstead é subestimada comparada a Goodman em todos os sentidos. Ela é um atriz fantástica que só recebe uma pequena parte da atenção que ela merece. Ela carrega 10 Cloverfield Lane transmitindo os sentimentos conflitantes de Michelle sobre a sua situação de maneira que mantem a tensão de forma permanente. sabemos apenas o que ela sabe, então ela tem que ser o canal para o filme, respondendo a cada novo obstáculo e conflito como faríamos.

A meia hora final do filme é muito bonita e vai dominar a conversa em torno de 10 Cloverfield Lane. Sem estragar alguma coisa, é uma série de eventos em que Michelle encontra novos desafios em cada esquina (que só seria spoiler se você nunca tivesse assistido um filme de suspense). Embora eu não tenho certeza se narrativamente é tão bom como poderia ter sido, e pode-se ver como uma adaptação do thriller tradicional no universo sci-fi com Winstead e os cineastas mantendo tudo funcionando através da pura confiança. Como as cenas iniciais do filme, o ato final é em grande parte livre de diálogo. Não há nenhum absurdo de personagem falando a si-mesmo como se costuma ver em filmes menores que não são tão seguros de si mesmo quando se trata de narrativa visual. O filme segura sua mão enquanto você passa por cima de todas as colinas da montanha-russa. Quando chega ao seu final, ele deseja que você levante as mão para cima e grite

sábado, abril 23, 2016

The Witch (2016) - A Bruxa


The Witch, um drama de época/filme de terror/filme de estreia do diretor Robert Eggers, anuncia-se como "um conto popular da Nova Inglaterra" em vez de um conto de fadas. Os contos de fadas são, no fundo parábolas que prescrevem valores morais. The Witch, é uma narrativa feminista que se concentra em uma família colonial americana vivendo o que parece ser uma maldição sobrenatural. É mais como um sermão. Sermões colocam questões que usam símbolos incisivamente alegóricos para nos fazer repensar nossas vidas, assim como um dos personagens usa o Livro de Jó para entender seu papel na família (mais sobre Jó em breve). Mas The Witch não é um jogo de moralidade em um sentido tradicional. É um drama conjunto sobre uma família infiel à beira da auto-destruição. E é sobre as mulheres, e as tensões patriarcais que levam a sua alienação.

Por um tempo, não é claro qual o personagem é exatamente o foco de The Witch. Provavelmente não é mãe sofrida Khaterine (Kate Dickie), embora Eggerrs dê ampla consideração ao seu luto do pequeno filho Samuel que desapareceu em circunstâncias incomuns. E definitivamente não são os jovens gêmeos travessos de Khaterine, Jonas e Mercy (Lucas Dawson e Ellie Grainger, respectivamente), embora Mercy muitas vezes não fale por ela mesmo e a incapacidade de seu irmão para entender como funciona o mundo após sua família ser banida para uma floresta de mal pressentimento que cerca a colonia. O principal protagonista do filme pode ser William (Ralph Ineson), o marido conturbado de Katherine. Ou poderia ser o filho mais velho Caleb (Harvey Scrimshaw), um jovem desesperado para defender seu pai da frustração de sua mãe.



Mas, mais frequentemente do que não, as preocupações são com Thomasin (Anya Taylor-Joy), a filha mais velha de Katherine e William. Thomasin sofre com a puberdade sob os olhos desconfiados de sua família, mas realisticamente, eles não estão muito preocupados com ela quando a colheita não vai bem, o dinheiro é escasso e Samuel está desaparecido. Ainda assim, Thomasin absorve o impacto das ansiedades de sua família: seus irmãos mais novo olham para ela em busca de conforto, mas ela se recusa a pressão adicional, especialmente depois que sua mãe faz com que ela tenha mais tarefas do que o resto dos membros de sua família. Há outras subtramas em The Witch, mas todas as estradas eventualmente levam a Thomasin. Essa é a beleza obscura da  história expansiva de Eggers: não é apenas sobre a presença marginalizadora das mulheres em um microcosmo dominado pelos homens, mas as duras condições que podem, mesmo sob circunstâncias extremamente isoladas que levam as mulheres a ressentimentos e autoestima paralisante.

The Witch é, nesse sentido uma anti-parábola. Eggers. eventualmente, leva Thomasin para o perigo, mas ele leva o seu tempo a limpar seu caminho. O resultado, por vezes, se sente como uma versão imaginária de As Bruxas de Salém pela visão do roteirista Harold Pinter, uma vez que segue desesperado, com almas solitárias que montam armadilhas de caça, ordenham cabras leiteiras, cultivam os campos e fazem suas própria roupas para evitar pensar sobre o que é realmente preocupante para eles. Demora um tempo para o clã de Thomasin  até mesmo considerar que seus problemas não são causados por uma bruxa ou um encantamento demoníaco. Mas eventualmente acontece. Antes disso não são apenas maus presságios, particularmente animais de aparência maléfica: Uma bode negro, uma lebre arrepiante, e alguns corvos faladores. Eventualmente a família de Thomasin personifica neles os seus medos da natureza, uma incerteza roedora que é previsível no gênero feminino. E de repente todos os problemas dos dia-a-dia da família, derivam do fato de que sua terra parece amaldiçoada pelo que parece assumir a forma de uma bruxa de contos de fadas.



O que nos traz de volta ao trabalho. No Livro de Jó, Deus fere a terra (de onde o homem obtêm o seu sustento trabalhando a terra), a fim de testar sua fé. O crente acredita que Deus age assim porque é uma divindade, ou talvez tenha uma misteriosa razão para fustigar Jó. Mas até o corpo de Jó é atormentado por Deus sem que Jó questione as razões misteriosas do seu tormento. O mesmo é basicamente verdade para William e sua família Até para os eventos que levam aos membros da família a apertar as gargantas um do outro, eles falam do negocio todo da melhor maneira possível para as razões do criador. Como resultado, quando você assistir The Witch haverá muitas razões para não saber do que se trata tudo isso. Mas o título do filme é uma grande dica: esta é uma fantasia sobre empoderamento, embora através de métodos poucos ortodoxos.

Eu falei muito sobre o que é The Witch sem mencionar o quão ele é bom e porque. Isso é em parte porque o filme é tão consistentemente envolvente que faz você se render a ele desde o seu inicio. O trabalho de câmera de Eggers é hiper-educado e vem para frente evocando os retratos do pintor Holandês Johannes Vermeer e as pinturas de Andrews Wyeth (há também uma referência explicita a uma das mais famosas pinturas de Francisco Goya, mas eu não posso te dizer por medo de arruinar uma surpresa). O designe de som complexo e a edição controlada também ajudam a estabelecer um estado de espirito que é (paradoxalmente) convidativo e sombrio. The Witch chama-lhe tão bem para o filme que você não vai perceber para onde seus criadores estão lhe levando


sábado, janeiro 23, 2016

Youth (Juventude) 2015



Youth é uma comédia dramática-bombástica sobre as emoções que são pequenas o suficiente para caber na palma da mão. Pequenos gestos inconsequentes e rotinas recebem uma importância momentosa porque em última análise, ninguém é mais sábio personagem que ninguém. "Juventude" é nesse sentido, um filme anti-elegíaco (Na literatura, Elegia é uma poesia triste, melancólica ou complacente, especialmente composta como música para funeral, ou um lamento de morte), onde os personagem meditam sobre emoções, auto-amor banal, orgulho, sobrevivência e culpa, mas em última análise, percebem que suas perspectivas são limitadas por suas circunstâncias individuais

O diretor e co-roteirista Paolo Sorrentino deixa os espectadores com a certeza de que eles não sabem tanto quanto os personagens interpretados por Michel Caine, Harvey Keitel, Paul Dano, e Rachel Weisz, mas provavelmente mais. Há um grande conforto em chegar a essa conclusão: Youth culmina com uma bela interpretação operística, intitulada "Canções Simples". A orquestração da peça musical, tal como a sua letra - "Eu tenho um sentimento. Eu vivo perto. Eu vivo para você agora." - é não notável em si mesma. Mas a riqueza de emoções que a soprano Sumi Jo canta transmite através do seu desempenho de partir coração, confirma o poder enganador da juventude, um grande filme sobre sentimentos pequenos.

A aposentadoria não concedeu dons mágicos de retrospectiva ao compositor da música Fred Ballinger (Caine). Há no entanto, um apelo romântico, sem dúvida, a sua solidão. Ballinger, assim como Mick Boyle (Keitel), um cineasta, levam a si mesmo para um auto-exílio que rola através de campos gramados banhados pelo sol em um Spa nos alpes Suíço crivados de flores selvagens. Fred quer ficar longe dos compromissos e ofertas de trabalho feitas a ele através de sua filha Lena (Weisz) e se diverte como o jovem ator cansado Jimmy Tree (Dano) com estupefação de dor. Fred vê Mick lutando para colocar em pratica um projeto de retorno com um roteiro cujo fim nunca parece estar a altura do satisfatoriamente profundo e se sente melhor em recusar o convite da Rainha da Inglaterra para executar/conduzir sua "Canções Simples" no aniversario do príncipe. A vida não tem nenhum mistério para Fred, e ele está bem com isso.

Sorrentino raramente tropeça em uma metáfora conhecida por muitos, como quando Fred descarta um monge budista dizendo: "Eu sei que você nunca poderá levitar" por pura força da concentração/meditação. Mas, mais frequentemente a força de Youth vem da natureza isolada de seus principais conjunto de peças. Existem temas comuns que unem os acontecimentos quase "fellinianos" do filme, como o casal de idosos que nuncam falam no jantar, ou a vencedora de um recente concurso (a garota desta capa sensual e quase profana) de Miss Universo, que acaba por se mostrar mais esperta do que parece. Mas cada sequencia imagética em Youth é como uma ilha que passa a se unir a outras ilhas como por encanto, cada cena tem vida própria.

Dessa forma, Sorrentino permite que os espectadores possam apreciar a perspectiva cínica de Fred, sem necessariamente ter que ver o motivo dele. Ele passa seus dias pensando se vai conseguir mijar hoje, lutando para se lembrar se ele dormiu com uma namorada da escola e assistindo a todos se atrapalharem em torno dele. Personagens declaram suas queixas (entre eles um nosso conhecido, Maradona), as suas observações auto-absorvidas, e seus pronunciamentos estrondosos.

Mas poucas cenas individuais se sente como definitivas ou testamentos autorais com tom de seriedade grave. Estes são pensamentos dispersos de personagens em férias e descansando  da vida mundana, não importa quão auto-importante, nem franca. Afinal, como pode-se concordar ou discordar de Fred quando ele opina que a vaidade é uma perversão, ou que "todos os canhotos são irregulares"? Mais frequentemente do que não Youth rejeita a noção de que todas as metáforas são criadas iguais, como quando Fred revira os olhos ao ouvir de seu amigo Mick um elogio sobre ele ser o rei das metáforas. Mais frequentemente do que não, as pessoas falam em Youth por uma questão de ouvir a si mesmas.

Isso deixa o mais pesado do levantamento do filme nas mãos de seu elenco capaz e da sua cinematografia. Você tem que sentir a emoção na voz trêmula de Caine, a expressão facial mal-humorada e a linguagem corporal plácida apara apreciar plenamente o significado freudiano quando ele diz que compôs sua música "enquanto eu ainda amava." Sorrentino é um dedicado (embora ostensivo) sensualista, de modo que o significado de suas imagens são inscritas em sua superficie. Weisz e Jane Fonda, que interpreta uma ex-colega cansada, mas brutalmente honesta de Mick, vão longe com seus diálogos.

Youth ressoa por causa de Sorrentino e a colaboração frutífera com o seu principal roteirista. Eles investem em uma melancolia brincalhona e romântica, na idílica e isolada localização Suíça de seu filme, que permite a seu elenco a liberdade de desaparecer, passear e impor um ritmo de um zoológico elaborado. Seus personagens, semelhantes, circulam em profundidade, mas nunca são eles próprios.

Em algum momento, todos os personagens em Youth caem fora do amor como uma forma de ver o mundo. Esse tipo de esmagamento não é universal, mas esta numa escala pessoal. As pessoas em geral, cobiçam a juventude e tentam tornar-se confortável com sua próprias vaidades e deficiências. Youth encanta você por simplesmente reconhecer que dizer algo profundo é apenas mais uma etapa no processo interminável de encontrar sentido na vida cotidiana

segunda-feira, dezembro 28, 2015

Star Wars Episódio VII - O Despertar da Força


Sem Spoiler. Prometo!

JJ Abrams foi colocado na terra para fazer Star Wars: O Despertar da Força, como evidenciado pelos ecos do sucesso da série Lost e do jeito que ele tentou  transformar Star Trek em Stars Wars. Sua pegada artística poderia parecer bonitinha ou irritante em outros lugares, mas ela fazem sentido com tudo que é sagrado em Star Wars. Esse novo filme define 30 anos após os acontecimentos de O Retorno do Jedi, é engraçado, comovente, e surpreendentemente ágil. Vangloria-se de um monte de elementos familiares, incluindo a mitologia da família Skywalker e uma outra arma semelhante a estrela da morte, bem como a linhas auto-conscientes de como as coisas funcionam nesta série. O filme é executado em última análise, contra as limitações de sua própria natureza: Como os filmes James Bond, os filmes Star Wars são praticamente obrigados a rever certos elementos, até o ponto onde eles podem se sentir jogado para fora, mesmo sendo acompanhado por outros filmes, programas de TV e livros (como foi Harry Potter). Mas ainda é um passeio emocionante, repleto de personagens arquetípicos com psicologias plausíveis, confrontos melodramáticos alimentados por emoções crescentes e apresentações que podem ser descritas como boa, ao invés de "bom" para Star Wars.

E é um prazer ver personagens mais velhos e amados por nós colocados ao lado de outros e em novas situações que respeitam o mito imaginado por George Lucas, mas corrigindo suas "falhas" como contador de história, incluindo a brancura padrão de seus elencos. A história é centrada em uma jovem mulher e um homem de cor (interpretados respectivamente por Daisy Ridley e John Boyega), e eles os fizeram tão atraentes e peculiar que o filme nunca parece estar colocado em um embrulho atualizado de clichês mofados. Como todos os novos personagens, ele parecem viver e respirar. Quando eles ganham o respeito de Hans Solo (Harrison Ford) e Chebawcca (Peter Mayhew) improvisando uma solução para um problema técnico, ou pegar um sabre de luz e começar a balançar, o resultado não é apenas uma demonstração de heroísmo para agradar a multidão; é uma afirmação de que um bom filme com um bom coração pode servir como espelho para todos.

Décadas depois de Darth Vader ter sido lançado para baixo em um poço de elevador por seu mestre, a galaxia é ainda assolada pela guerra. A Republica ainda é a Republica, mas agora eles estão financiando não muito secretamente a rebelião contra os remanescente do Império, que tem sido suplantado por algo chamado de Primeira Ordem. O Império entrou em retiro desde o Retorno do Jedi, quando Luke Skywalker (Mark Hammil) virou seu pai para o lado da luz da Força. Mas os resquício do Império foram tenaz. Agora que Luke se escondeu após uma desastrosa tentativa de formar uma nova classe Jedi, eles ganharam força e audácia, e construíram uma variação da Estrela da Morte que basicamente é um canhão de artilharia acoplado a um planeta, com um alcance intergaláctico. Os imperiais parecem soar ainda mais como uma coisa nazista do que os vilões da primeira trilogia. Uma da únicas cenas onde Abrams exagera completamente (o que é difícil de fazer em um filme Star Wars) é o rali antes da explosão inaugural da super arma. O comandante supremo da Primeira Ordem aborda dezenas de milhares das tropas dispostas em formação padrão, tocando seu rosto pastoso na câmera e praticamente cospe na lente.

Em outros lugares, Abrams prova que ele deu tanto pensamentos aos significados culturais maiores de Star Wars quantos as seus personagens icônicos, gadgets e naves espaciais. Muitos historiadores do cinema tem notado a forma como o primeiro filme de Lucas, que saiu dois anos após o fim do envolvimento dos EUA no Vietnam, viraram de cabeça para baixo os scripts de guerra, fazendo com que os derrotados americanos se identifica-sem com os "rebeldes", que na verdade estavam mais assemelhados aos guerrilheiros vietcongues, do que com a raiz militar industrializada cujas táticas foram arrasadas por uma força não convencional de combate. Um soldado Stortrooper assando uma cabana com um lança chamas traz a obsessão do Vietnam em um circulo completo em toda a trilogia original até o Iraque, talvez, mesmo que os combates, muito dos quais sejam conduzidos na atmosfera planetária que nos reconecta a um passado de quase quatro décadas nas telas. Como inúmeras referencias do filme para outros Star Wars, além da batalha da Estrela da Morte, as cena da arvore em Dagobah de O Império Contra-Ataca, as criaturas habitantes de outros planetas de Uma Nova Esperança, O Retorno do Jedi e o Ataque dos Clones - as alusões históricas não sobrecarregam a historia básica, que é muito no espirito do original de 1977: um bando de desconhecido que acabam salvando a galaxia com a ajuda de um poderosos sábio ancião.

Estes filmes são uma parte da história americana, da história universal, do cinema e da nossa história pessoal, tudo de uma vez. As novas caras lá em cima na tela são tão convincentes quanto as familiares, por que elas nos lembram que no mundo de Star Wars, como em nosso mundo, a vida continua, não importa o quê

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Colina Escarlate (Crimson Peak) 2015




Na introdução de 1831 de Frankenstein, Mary Shelley descreveu a gênese de sua história clássica. Durante uma noite na companhia de seu marido Percy Shelley, Lord Byron, e outro hóspede, eles tiveram uma ideia para entreter um ao outro, escrevendo histórias de fantasmas. Mary Shelley não podia acrescentar nada a reunião e foi para a cama ainda pensando na ideia. Depois se tornou possuída pela imagem de um homem deitado sobre uma mesa que voltava lentamente a vida. Shelley lembrou que estava trancada em seu quarto pensando: "Eu achei que me aterrorizou e por isso podia aterrorizar os outros. Eu precisava apenas descrever o espectro que assombrou a minha meia-noite no travesseiro"


O diretor Guillermo Del Toro tem uma crença semelhante que as imagens que se aglomeram em seu cérebro podem vir a vida. Ele cria mundos intricados, esmagando a quem o assiste com detalhes, e os afogando com simbolismos. O fato de que a maioria do que está na tela seja físico, ao invés de gerados em computadores, ajuda. A atmosfera de Colina Escarlate/Crimson Peak explode com paixão sexual e segredos obscuros. Há um par de monstros (sobrenaturais e humanos), mas as emoções gigantescas são as mais aterrorizantes coisa na tela. Os filmes de Del Toro podem se tornar uma grande opera de emoções. Na era vitoriana na Inglaterra, o Lyceum Theatre impressionava o publico com efeitos de palco revolucionários projetados para trazer o horror de Macbeth (por exemplo) e apresentar novas formas viscerais de impressionar. O estilo de Del Toro se encaixaria perfeitamente com isso. Ele colocou-se nessa longa tradição e ele merece estar lá.


Uma herdeira americana, Edith Cushing (Mia Wasikowska), a heroína de Colina Escarlate, viu o fantasma de sua mãe morta quando ainda era uma criança, as sombras de seus longos dedos rastejando ao longo da parede ("roubado" de Nosferatu). Como uma jovem mulher e vivendo com o apoio do pai (Jim Braver), ela prefere os livros aos galanteadores, e está escrevendo uma história de fantasmas ("fantasmas são uma metáfora da minha vida", diz ela). Quando mulheres tolas, tentando ofende-la a comparam com Jane Austen, que morreu uma solteirona, ela responde friamente que preferia ser comparada a Mary Shelley que morreu viuvá. O isolamento livresco de Edith desaparece quando o irmão misterioso e sua irmã, Thomas e Lucille Sharp (Tom Hiddleston e Jessica Chastain) chegam na cidade. Os dois tem títulos ingleses elegantes, mas estão sem um tostão, pedindo apoio financeiro para uma das invenções de Thomas. Thomas persegue Edith com a queima de seus olhos brilhantes, tudo sobre o brilho atento dos de sua irmã, e Edith cai. Um optometrista chamado Alan McMichael (Charlie Hunnam) também está interessado em Edith, mas tem que ceder terreno a Thomas, embora com duvidas. Thomas se casa com Edith, e voltam com Lucille para a Inglaterra, para a propriedade da família, Allerdale Hall.

É em Allerdale Hall que o filme realmente começa, mas essas seções preliminares, a imersão no mundo de Edith, são igualmente importantes. A América é mostrada como uma terra de festas no jardim, piscando em sua iluminação a gás, atividades intelectuais e vida familiar. As cores são outonais, mostardas e alaranjadas. Lucille esbarra através dessa paisagem dourada dentro de vestidos cor de fogo carmim-pesados, ou toda de preto. É muitas vezes a chuva, criando sombras de formas subaquáticas nas paredes. Mas é um mundo civilizado com regras reconhecidas. Allerdale Hall, por outro lado, é uma ruína com torres pretas de uma mansão em pé em meio a campos vazios. Uma argila vermelha-carmesim escorre através de suas tabuas podres que revestem as paredes e o porão. O hall de dentro da entrada principal atinge o teto em altura, e por causa da deterioração do telhado, o salão, está sempre cheio do tempo la fora: folhas em queda, ou neve, conforme as estações. Alledale Hall é uma obra prima de designe, mas também de concepção. Rangidos e gemidos em turnos dão o tom lúgubre de seus cômodos e o vermelho do barro sempre ameaçando engolfa-la por completo.


Colina Escarlate é uma reminiscência de Interlúdio (Notorius) de 1946, a trama de Hitchcok, mas também ha uma clara influência de Rebecca, A Mulher Inesquecivel de 1940, do mestre do suspense. Em Interlúdio, Alicia Huberman (Ingrid Bergman) se casa com Alexander Sebastian (Claude Rains) como uma cobertura para sua tentativa de se infiltrar em um cartel Nazista. Uma vez na casa, ela é dominada pela mãe de Alexander (Leopoldina Konstantin), uma "Fraulen" monstruosa dos infernos. Tanto Colina Escarlate como Interlúdio possuem motivos visuais semelhantes, de xícaras de chá envenenadas a molhos de chaves. Há tomadas de câmeras em Colina Escarlate que espelham Interlúdio, um close-up em um molho de chaves onipresente com a chave desejada no topo da pilha, ou a câmera seguindo uma xícara de chá através do quarto. Como Alicia Huberman em Interlúdio, Edith sente que se pudesse obter a chave do porão, e encontrasse a fechadura certa, ela poderia entender os segredos enterrados naquela casa, e seu próprio destino.

Como em Labirinto do Fauno, Colina Escarlate cria um ambiente onde essas apostas altas podem operar em sua própria aceleração. Os visuais de Allerdale Hall chamam à mente os cineastas expressionistas alemães, bem como diretores tão diversos como Mario Brava e Alfred Hitchcock. Mas enquanto Colina Escarlate lança associações (Tradição do romantismo gótico, Hitchcock, Shirlley, O Iluminado de Kubrick, irmãos Grimm), que não é apenas uma homenagem, é um hibrido próprio de Del Toro. As imagens em si tem um grande poder: Uma mulher loura esgueirando-se através de uma casa escura, segurando um candelabro. Uma mulher de cabelos pretos caminhando em um chão nevado, carregando uma bandeja de chá em chocalhantes xícaras. Um homem em sua oficina criando brinquedos que abrem a boca para vomitar bolas de pratas. Edith vê horrores à noite através das portas, corredores para baixo. Ela deve ser corajosa suficiente para enfrentar estes fantasmas, de olhar nos olhos deles, para ver o que ela não é suposto ver. No lado oposto, Thomas e Lucille devem impedir que ela veja a verdade.

Del Toro usa um monte de antiguados truques de câmera. Ele pertence a velha escola em tudo, em enquadramento, movimento câmera e entendimento das relações espaciais. Há momentos em que, nos braços de Thomas, seu casaco preto ocupando metade da tela, e o movimento de câmera faz Edith se mover de lado e lentamente ser engolida pela escuridão.

O ato final apresenta um par de monólogos, como um derramar de segredos que alguns membros da audiência podem acha-los demasiados expositivos. Mas, novamente, na longa tradição do cinema, filmes de suspense costumam ser caracterizados por tais monólogos no último ato. Há um forte precedente para a eficacia destes dispositivos, e eles são eficazes aqui também. O realismo é um fenômeno recente, e os filmes de Del Toro não estão vinculados a essas exigências, embora as emoções em seus filmes sejam sempre real. Como os atores de antes do advento do cinema (e do close-up) Del Toro entende, que agindo precisavam, os atores, ser grande o suficiente para encher o teatro. Isso não significa, necessariamente discursar de foma oca. Isso significava que as suas emoções tinham que ser grande o suficiente para viajar, para alcançar os lugares mais baratos da plateia, para atender o escopo da história. O elenco de Colina Escarlate entende isso. Eles são todos emoções. Assistir a filmes de Del Toro é um prazer, porque sua visão é evidente em cada quadro. O melhor de tudo, porém, é a sua crença de que "o que o aterroriza vai aterrorizar os outros." Ele tem razão.

Bateu a saudade! O Velho Nerd voltou.