sábado, abril 05, 2014

Escape From Tomorrow (2013)


 COMO SURTAR NA DISNEYWORLD


O filme Escape From Tomorrow é uma estranha e obscena comédia de humor negro, irregularmente divertida ainda que se desgaste em suas boas vindas. Como uma provocação, é acída, especialmente se como o roteirista e diretor do filme, Randy Moore parece - você também odiar a Disney e tudo que ela representa.

Para ser claro, eu não odeio a Disney. Na verdade até gosto de um bom números de filmes da empresa, aprecio as histórias de seus parques temáticos, e a própria biografia de seu fundador Walt Disney. Mas eu também sou pai de dois filhos, que já foram pequenos no passado e posso me imaginar em uma visita compulsória pelo mundo do seu parque em um dia que eu não estivesse de bom humor, com nenhuma disposição para a aventura e tendo que fingir que aquele era um grande momento. Esse lado sitiado meu reagiu diante do filme com alegria catártica. Essa comédia de baixo orçamento em preto-e-branco sobre um marido e pai enlouquecendo na Disneyworld é claramente o trabalho de um cineasta que luta contra seus demônios. Foi filmado em locações no mundo da Disney em "cromaquis" e sem autorização. A Julgar pelo que está na tela, era a única maneira que ele poderia ter sido feito: Se a Disney (a empresa), soubesse antecipadamente o que o elenco e a equipe iriam fazer, eles nunca teriam permitido algo assim nem perto do parque. Fuga para o Amanhã é um ato de vandalismo cultural, o equivalente a colocar desenhos de genitais em animais fofos de contos de fadas.

Roy Abramsohn estrela como Jim, o marido sitiado de Emily (Elena Schuber) e pai de duas crianças pequenas. Ele já parece distraído ou insatisfeito quando o encontramos pela primeira vez, mas a noticia repentina de que ele foi demitido de seu emprego empurra-o inda mais para a beira do precipício. Algo dentro dele não se encaixa. Ele se comporta com impaciência e uma raiva amarga com sua esposa e filhos, desenvolve uma obsessão sexual patética por duas belas adolescentes que também passeiam pelo parque e alucina visões sinistras em passeios inofensivos, que transformam um alegre show de marionetes em um pesadelo psicodélico.  Como Jim, Abramsohn não adoça ou alivia as qualidades desgastantes do personagem, ele na verdade as cola na frente e no centro de seu desespero e garante que Roy tenha todos os seus pensamentos, inclusive os mais desprezíveis e repugnantes.

A visão do diretor é demasiada estreita para suportar uma comédia de longa metragem. É bom nunca deixar de lado a ideia de que é em Jim que toda a história é moldada, por vezes deformada, por sua mistura de desespero, luxuria e ressentimento. Muitos bons filmes ficaram ancorados no ponto de vista de seus personagens centrais, o problema é que a psique de Jim não é fascinante o suficiente para se chafurdar nela por 90 minutos. Os personagens secundários não oferecem um alivio para a monotonia da sua angustia, e não foram escritos para sugerir que a mais para eles do que para Jim. Isso é muito ruim, porque há sempre uma lacuna entre a percepção de um personagem  da realidade, e é a realidade que enriquece a história mesmo quando sua referencia é meramente simbólica como aqui. As adolescentes do filme nunca parecem mais que meninas "sujas" saídas das fantasias de um homem velho. Lolitas pulando, rindo e brincando com ele. Emily é raramente mais que um cônjuge em sofrimento ou uma megera rabugenta reclamante (exceto em uma das cenas final maravilhosa onde ela sente a profundidade de sua miséria e estende sua mão para Jim). As vezes sinto que Jim não está apenas projetando sua dor para quem não merece, que talvez essa rima-com-bruxas são o seu verdadeiro problema.

O Clímax selvagem e perturbador do filme resgata alguns dos erros do filme. Ele libera o Id do cineasta por meio da imaginação as avessas de Jim e sugere que ele tem razão em pensar que o "rato" tenha uma agenda sinistra. Há uma sensação de oportunidade perdida em seu final: Fuga para o Amanhã poderia ter sido uma obra prima sorrateira, e não é. Mas ainda é um vital e significativo recurso americano. Todos os filmes devem ter este tom "decepcionante" para querermos mais. Com seu histórico de produção sorrateira e de baixa tecnologia de efeitos especiais (incluindo fundo verde para projeções de imagens tipo karaokês), Fuga para o Amanhã é a arte de guerrilha. Ele ataca contra a versão plácida, sem sexo e de felicidade limpa vendida pela Disney, e não porque pensa que diversões devidamente higienizadas não tenha lugar na vida americana, mas porque a visão de Disney é tão suavemente opressiva quanto a enfermeira de Silent Hill, que agora me fugiu o nome.

É impressionante que este filme tenha vindo a luz se safando de toda possível acusação de assédio moral. Talvez os advogados da Disney perceberam que não é apropriado tentar silenciar uma comédia, porque se atreveu a tratar Disney World e seus passeios de direitos autorais e personagens como se poderia tratar de qualquer outro local icônico que as famílias visitam pelo mundo afora. Insistir de outra forma poderia ter convidado uma batalha legal e uma para qual a Disney teria perdido, uma vez que o júri percebeu que "Escape from Tomorrow" foi uma declaração política, bem como uma arte, e que a decisão de filmar em locação foi essencial para seu humor e mensagem. 

Este é um pequeno filme ambientado no mundo pequeno, mas sua audácia o torna importante. Parece que foi dado o primeiro tiro em uma guerra de propriedade intelectual. O inimigo foi sábio em não atirar de volta.


Um comentário:

  1. Adorei a resenha, aposto que esse deve arrasar e ser muito bom. Já tá na minha lista de quero ver.

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