Dia 160. Euclides e Michel, 144.
Conjurar sombras é uma arte e um ofício, mas não é para muitos. É preciso que haja uma predisposição natural para sujar as mãos e para dormir com os olhos abertos, e uma necessidade sombria de fazer música sobre os próprios defeitos.
Olhar-se no espelho de manhã bem cedo e, mesmo assim, encarar o dia que vem chuveiro abaixo.
* * *
Conversando sobre música e outras coisas, decidimos - eu e mais alguns amigos - após votação pública que o álbum de hoje seria do Oasis. A indefinição perdurou até o final, quando eu, num impulso comum - por ser eu impulsivo - começo a ouvir o disco do dia."(What's The Story) Morning Glory", de 1995.
A palavra é: épico nível Gilgamesh, Krishna e Gandalf. Um disco de Rock feito pelos - semprefoda britânicos - irmãos Gallagher. Um disco cheio de energia paranóide, esquizóide e sociopata como ele só, cheio de violência e de amor, paixões cheias de fogo, ferro, asfalto e enxofre.
Urbano, feito de concreto, vidro e fumaça de carros, contém as angústias de toda uma geração. Nós, da década de 1980, ainda tínhamos alguns ideais pelos quais lutar até dia desses. Os meninos que vieram depois são soltos e desenraizados - para o bem ou para o mal. Um novo tipo de seres humanos, um tipo diferente de energia, outros níveis de superficialidade. Nem mesmo cínicos eles conseguem ser, pois que o cinismo supõe uma certa profundidade.
(Isso não é uma crítica, mas um fato. E claro, há exceções, pois não pretende ser uma generalização burra. Portanto, não encha o saco).
Pois bem: "Morning Glory" é sobre encarar o sol da manhã todos os dias, e escolher se acreditamos ou não nas sombras que não vemos. Cruzar todos os dias com pessoas estranhas, imitar comportamentos, dizer o que os outros esperam que dizemos...
- Tomar um banho de lama de um carro que passa enquanto o motorista gargalha ouvindo música gospel -
Mais ou menos isso.
A vida te dá um sacode e ri de tua cara dizendo: oi?
Essas coisas.
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Esse álbum mexe comigo. Me deixa desconexo, em pó, ao vento. Textura de chuva e lama, manchas de mofo, leite azedo, coisas guardadas, gaveta de avó, roupas que não cabem mais, fotos antigas.
São lembranças agradáveis, embora meio toscas, do garoto nerd e bobo que achava que sabia muita coisa, mas na verdade apenas pagava de esperto. Aí veio a clássica menina ruiva e te ensinou a curtir Oasis, e mais de quinze anos depois você sabe que deve muito à ela, por tudo o que houve, por tudo o que não foi dito.
Wonderwall.
Ainda não havia cisão real entre os Gallagher. Oasis era uma perfeita harmonia entre Dionísio e Apolo, e "Morning Glory" é um clássico eterno do Rock. Na semana em que Wonderwall foi eleita como a música mais importante dos últimos vinte anos (http://www.abc.net.au/triplej/hottest100/alltime/20years/), nada mais próprio e justo que este seja um review comemorativo e curtidor do som dos caras.
* * *
É sobre estar meio cheio e meio vazio, e levar as coisas adiante não importa como, seja por inércia, monotonia ou teimosia.
Se é para existir e sumir, eu incomodarei, e serei lembrado pela irritação que causei mesmo depois de desaparecer.
Até.
P.S.: Lição nº 327 - Nunca escrever quando estiver com febre.
P.S.2: Sombra devidamente conjurada.



They can take my soul, but don't my pride.
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