Dia 164 - Felipe Pereira 159
Mama - 2013
Dir: Andrés Muschietti
Elenco: Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau, Megan Charpentier e Isabelle Nélisse.
“Um fantasma é um movimento sem forma, condenado a se
repetir continuadamente, até que ele corrija os erros que cometeu”.
Ou seja, um fantasma é um gif animado.
Pronuncia-se “jif”.
Enfim.
Atrasei Mama o quanto pude na minha lista de filmes para
ver. Não me atraio muito por horror sobrenatural. Não por que sou medroso, na
verdade eu sou medroso, mas obras do gênero raramente afetam esse meu lado. Só
sustos não fazem valer a experiência, afinal, susto por susto, o labirinto do
terror assusta, causa traumas na infância, faz as notas caírem na escola e
desencadeia um daqueles discursos de jornalista séria na Rachel Sheherazade.
Mama é diferente, em termos. Tem seus sustos gratuitos,
mas se esforça para fugir da mesmice. Baseado em um curta metragem argentino de
2008 chamado Mamá (perdeu o acento quando foi pros EUA), o longa conta a
história de um casal que traz para casa duas meninas, as sobrinhas do cara,
desaparecidas cinco anos antes quando o pai das crianças surtou, matou dois
amigos e a própria esposa e fugiu com as meninas para uma cabana no meio do
mato com o intuito de mata-las lá dentro. Na época a mais velha tinha uns 3
anos e a mais nova tinha apenas um. Quando o pai estava prestes a matar as duas
algo o impediu. Algo que o amassou feito uma bolinha de papel e sumiu com ele
para sempre.
Cinco anos depois Annabel (a sempre fantástica Jessica
Chastain) e, o irmão gêmeo do pai, Lucas (o fraco Nikolaj Coster-Waldau)
encontram as duas garotas na mesma floresta onde o pai as levou para mata-las.
As duas estão desnutridas, machucadas e agem feito animais selvagens, após
tanto tempo longe do contato humano (a mais nova praticamente nunca teve
contato humano). Mas o mais impressionante é que as duas estão vivas! Após
cinco anos sozinhas numa cabana no meio do nada, comendo sabe-se lá o que!
A questão que se levanta (e que decepcionantemente logo
se responde) é: estariam elas realmente sozinhas lá durante todo esse tempo?
Eis que as meninas são trazidas de volta à vida em
sociedade, são tratadas e reintroduzidas e sua guarda passa a ser disputada
entre o irmão do pai e a irmã da mãe. O tio ganha a guarda provisória e os
quatro, o tio, sua namorada e as duas meninas, se mudam para uma casa cedida
pelo psiquiatra que cuida do caso.
A partir desse momento as coisas ficam realmente
estranhas pro lado da inusitada família (o cara é desenhista, a mulher é
roqueira e as duas meninas pensam que são guaxinins). Vozes, barulhos pela
casa, mariposas por toda parte, passos, presenças sinistras, portas que batem,
luzes que apagam, pacote completo.
A explicação surge mastigada e imediatamente: as crianças
passaram 5 anos na cabana sob os cuidados de um fantasma chamado Mama e, quando
elas foram reintroduzidas na sociedade, Mama decidiu que iria junto. Só que a
mulher é agressivaça! É um espírito poderoso e irritadíssimo, não gosta de que
ninguém se aproxime das filhinhas dela. Está disposta até mesmo a matar para
impedir isso.
Conforme o filme vai passando as coisas, naturalmente,
vão sendo explicadas. Tudo vai sendo devidamente detalhado, devidamente
mastigado de forma que na metade do longa você provavelmente já tenha entendido
tudo. É um quebra cabeças de 45 peças, você monta em 3 minutinhos.
Daí em diante é susto, personagens descartáveis
encontrando seus fins e Mama infernizando a vida do casal. No meio do filme o
cara sai de cena e só volta pros vinte minutos finais, deixando a batata nas
mãos da namorada: duas meninas loucaças (que vão se adaptando à vida fora da
selva com certa facilidade) e um espírito ciumento e assassino que quer a
guarda das meninas.
É um filme meio travado, seu início tem muito conteúdo e seu
miolo é muito simples. A motivação para acontecer é meio forçada, a coisa das
crianças selvagens é um tanto questionável, e as atuações inicialmente são meio
incômodas. Mas a direção do argentino Andrés Muschietti (que também assina o
curta) é firme e criativa, o elenco evolui com fluidez (principalmente Chastain
quando finalmente se encontra dentro da personagem) e a história, mesmo jogada
na cara do expectador sem qualquer suspense, tem sua beleza.
Em certo ponto Mama se assume como algo que quer ser mais
que um suspense de horror genérico, ele adiciona isso a um sentimento, uma
emoção que pouco se vê no cinema do tipo. A entidade Mama sente algo realmente
poderoso e verdadeiro pelas duas meninas e tem seus motivos sinceros para isso
e isso equilibra a coisa toda de uma forma muito convincente.
O maior pecado do diretor é mostrar demais e cedo demais.
Ele usa muito CGI e isso não causa medo por si só, precisa do apoio do susto
rápido, do explode, assusta e passa, de trilha sonora estourada e todos esses
artifícios. Ele mostra o fantasma em seus mínimos detalhes e o visual do
espírito é muito irreal, muito artificial, incomoda demais.
A beleza da coisa está mesmo no sentimento inserido, na
vontade de seguir uma linha diferente e na razão pela qual a incansável Mama
ama tanto suas filhas de mentirinha. Confesso que seria mais convincente se a
própria mãe assassinada das meninas fizesse esse serviço, teria até uma beleza
maior (aquela história de amor de mãe que é eterno, apesar de piegas,
funcionaria muito bem), ficaria mais simples e mais realista para os propósitos
do roteiro, mas a verdade é que o produto final tem seu charme e sua qualidade.
Ah, não nos esqueçamos que tem o dedo gordo e suado do
mestre Del Toro envolvido e, sim, para o bem ou para o mal, isso pesa bastante
por aqui.
Uma oportunidade perdida, aliás, de fazer as coisas de um
modo um pouco mais analógico e menos artificial.
Mas já foi.
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