segunda-feira, outubro 13, 2014

Junip - Fields (2013), ou: Não ouça se você é feliz. Sério.


Olha que capa linda! Caramba!
Sou fã daquelas músicas que te fazem sentir pequeno, solitário, abandonado e insignificante. Canções que te provocam quando evocam grandes paisagens e silêncios, e que te fazem visualizar estradas que desembocam no horizonte.

Dos cantores que tem essa capacidade de te fazer desejar caminhar pelo mundo, o que mais se destaca, em minha opinião, é o sueco José González. Já falei aqui de seus discos Veneer (http://www.01pordia.com/2014/09/veneer-2003-jose-gonzalez-ou-sementes.html) e In Our Nature (http://www.01pordia.com/2013/08/in-our-nature-jose-gonzalez-ou-o-som-do.html), e do filme A Vida Secreta de Walter Mitty(http://www.01pordia.com/2014/04/a-vida-secreta-de-walter-mitty-de-ben.html), onde suas músicas puxam a trilha sonora.


Mas hoje, vamos falar de Junip. Formada na Suécia em 1998 pelos amigos José González, Tobias Winterkorn e Elias Araya, lançou dois discos: “Fields” (2010) e “Junip” (2013).


A música que surge de espaços abertos e infinitos narra a luta do ínfimo indivíduo humano contra o infinito caos/acaso. Seja no embate contra o relógio imparável, seja contra a rotina, o homem já se afigura como duas possibilidades: perdedor esmagado ou apreciador ávido. Ouvir Junip nesse “Fields” te faz desejar deixar de ser o primeiro e passar a ser o segundo.

Alturas e distâncias, memórias e estradas. Passear pelo mundo sem rumo, rumo a lugar nenhum, tentando se encontrar e com medo de achar... Junip é a epopeia do minúsculo contra a imensidão, é não se deixar abater diante de coisinhas mesquinhas quando há tanto para se ver, tanto para conhecer e provar.


A primeira faixa, “In Every Direction”, é como um mantra: “você é o centro, e sempre estará livre/em qualquer direção”. Nadar em ondas de atividade, esperar pelo toque divino... quem somos nós quando não estamos em movimento, quando mover-se é viver?

Em seguida temos “Always”, uma balada com pegada mais marcada, fala de sabermos a hora de não ouvir. Escute/leia e você entenderá.

Em “Rope & Summit”, o talento dos três se confunde com mágica. O violão de González, a bateria de Araya e o sintetizador Moog de Winterkorn mesclam-se de maneira orgânica, gerando uma música de beleza alienígena, pandimensional.

“Without You” é uma declaração de amor em busca de perdão. Uma canção de beleza e simplicidade extremas, rica em texturas variadas, e cores. Belíssima.

“It’s Alright”é sobre as pequenas consolações e suas consequências.

“Howl” é sobre questionamentos existenciais e perguntas essenciais, geralmente sem respostas fáceis – embora várias pessoas possam responde-las facilmente através de fórmulas.

“Sweet And Bitter Taste” traz uma canção com uma pegada mais rock, com dubs e glitches misturando-se à uma bateria bem marcada, confrontando doces e amargos das coisas/pessoas/situações.

Agora, “Don’t Let It Pass” ... essa se destaca de todas as outras. Ela é o carro chefe deste disco, cheia de poder e suavidade. Ela é como uma tempestade de verão – furiosamente serena, assustadoramente bela em sua riqueza. É a faixa mais sólida do disco, a mais marcante. Ela é o motivo pelo qual você veio até aqui. Sério. É sobre não deixar as oportunidades passarem, é sobre ficar preso no conforto. É sobre abrir mão de ser em detrimento do estar. É sobre tudo o que importa quando há o desejo de se diluir na poeira e no vento da estrada.

“Off Point” é sobre isso, partir e colecionar memórias e histórias, abrir mão de estar parado, soltar aquilo que te prende e ao que você se prende.

“To The Grain” fala sobre o destino de todos, e sobre a viabilidade de perder tempo com as pequenas coisas. Minimalista e bela.

“Tide” é uma reflexão sobre como nossas cicatrizes nos marcam, sobre a profundidade de nossas memórias e sobre o sentimento de revisitar – amigos, lugares, situações. Sombria e cheia de impressões de sentidos.

Resumo do disco?

Não ouça “Fields” se você é feliz com sua vidinha regrada. A vontade de partir rumo ao desconhecido e explorar pode ser grande demais para aguentar. Este disco é para aquelas pessoas cuja atividade tectônica é, aparentemente, extinta - mas sempre há pequenos tremores e, bem no fundo, todos sabem que a qualquer momento pode haver uma erupção violenta o bastante para mudar o mundo.

Qualquer dia desses, meus pés encontrarão o caminho. Quem sabe não nos vemos por aí, numa das encruzilhadas da estrada?

Este foi o Ladrão de Almas, ao som de “Fields”, de Junip.

Abraços a todos. Longos dias e belas noites.

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