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Olha que capa linda! Caramba! |
Sou fã daquelas músicas que te fazem sentir pequeno,
solitário, abandonado e insignificante. Canções que te provocam quando evocam
grandes paisagens e silêncios, e que te fazem visualizar estradas que
desembocam no horizonte.
Dos cantores que tem essa capacidade de te fazer desejar
caminhar pelo mundo, o que mais se destaca, em minha opinião, é o sueco José
González. Já falei aqui de seus discos Veneer (http://www.01pordia.com/2014/09/veneer-2003-jose-gonzalez-ou-sementes.html) e In Our Nature (http://www.01pordia.com/2013/08/in-our-nature-jose-gonzalez-ou-o-som-do.html), e do filme A Vida Secreta de Walter Mitty(http://www.01pordia.com/2014/04/a-vida-secreta-de-walter-mitty-de-ben.html),
onde suas músicas puxam a trilha sonora.
Mas hoje, vamos falar de Junip. Formada na Suécia em 1998
pelos amigos José González, Tobias Winterkorn e Elias Araya, lançou dois
discos: “Fields” (2010) e “Junip” (2013).
Falemos de “Fields”.
A música que surge de espaços abertos e infinitos narra a
luta do ínfimo indivíduo humano contra o infinito caos/acaso. Seja no embate
contra o relógio imparável, seja contra a rotina, o homem já se afigura como
duas possibilidades: perdedor esmagado ou apreciador ávido. Ouvir Junip nesse
“Fields” te faz desejar deixar de ser o primeiro e passar a ser o segundo.
Alturas e distâncias, memórias e estradas. Passear pelo
mundo sem rumo, rumo a lugar nenhum, tentando se encontrar e com medo de
achar... Junip é a epopeia do minúsculo contra a imensidão, é não se deixar
abater diante de coisinhas mesquinhas quando há tanto para se ver, tanto para
conhecer e provar.
A primeira faixa, “In Every Direction”, é como um mantra:
“você é o centro, e sempre estará livre/em qualquer direção”. Nadar em ondas de
atividade, esperar pelo toque divino... quem somos nós quando não estamos em
movimento, quando mover-se é viver?
Em seguida temos “Always”, uma balada com pegada mais
marcada, fala de sabermos a hora de não ouvir. Escute/leia e você entenderá.
Em “Rope & Summit”, o talento dos três se confunde com
mágica. O violão de González, a bateria de Araya e o sintetizador Moog de Winterkorn
mesclam-se de maneira orgânica, gerando uma música de beleza alienígena,
pandimensional.
“Without You” é uma declaração de amor em busca de perdão.
Uma canção de beleza e simplicidade extremas, rica em texturas variadas, e
cores. Belíssima.
“It’s Alright”é sobre as pequenas consolações e suas
consequências.
“Howl” é sobre questionamentos existenciais e perguntas
essenciais, geralmente sem respostas fáceis – embora várias pessoas possam responde-las
facilmente através de fórmulas.
“Sweet And Bitter Taste” traz uma canção com uma pegada mais
rock, com dubs e glitches misturando-se à uma bateria bem marcada, confrontando
doces e amargos das coisas/pessoas/situações.
Agora, “Don’t Let It Pass” ... essa se destaca de todas as
outras. Ela é o carro chefe deste disco, cheia de poder e suavidade. Ela é como
uma tempestade de verão – furiosamente serena, assustadoramente bela em sua
riqueza. É a faixa mais sólida do disco, a mais marcante. Ela é o motivo pelo
qual você veio até aqui. Sério. É sobre não deixar as oportunidades passarem, é
sobre ficar preso no conforto. É sobre abrir mão de ser em detrimento do estar.
É sobre tudo o que importa quando há o desejo de se diluir na poeira e no vento
da estrada.
“Off Point” é sobre isso, partir e colecionar memórias e
histórias, abrir mão de estar parado, soltar aquilo que te prende e ao que você
se prende.
“To The Grain” fala sobre o destino de todos, e sobre a
viabilidade de perder tempo com as pequenas coisas. Minimalista e bela.
“Tide” é uma reflexão sobre como nossas cicatrizes nos
marcam, sobre a profundidade de nossas memórias e sobre o sentimento de
revisitar – amigos, lugares, situações. Sombria e cheia de impressões de
sentidos.
Resumo do disco?
Não ouça “Fields” se você é feliz com sua vidinha regrada. A
vontade de partir rumo ao desconhecido e explorar pode ser grande demais para
aguentar. Este disco é para aquelas pessoas cuja atividade tectônica é,
aparentemente, extinta - mas sempre há pequenos tremores e, bem no fundo, todos
sabem que a qualquer momento pode haver uma erupção violenta o bastante para
mudar o mundo.
Qualquer dia desses, meus pés encontrarão o caminho. Quem
sabe não nos vemos por aí, numa das encruzilhadas da estrada?
Este foi o Ladrão de Almas, ao som de “Fields”, de Junip.
Abraços a todos. Longos dias e belas noites.
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