Noé é um filme bizarro. Não pude deixar de pensar nisso depois de vê-lo. Como descrever algo assim, com tantas camadas e com tantas leituras envolvidas. Se considerarmos Darren Aronofksy, o seu diretor, ai a coisa ganha um nível ainda maior de dificuldade em descrevê-lo. Quem conhece a sua filmografia sabe que vai encontrar em seus filmes, profundos simbolismos místicos e esotéricos como em Pi - um thriller cabalístico sobre um gênio matemático que busca uma constante numérica universal, Cisne Negro - Uma fábula gnóstica sobre a exploração da luz interior humana por um demiurgo representado pelas exigências mercadológicas de uma companhia de balé e Fonte da Vida, o filme que perturbou o meu irmão Michel, e que descreve uma jornada de elevação espiritual por meio de um complexo simbolismo gnóstico e alquímico.
Eu vou tentar, e se conseguir, terá sido a minha maior ousadia desde que comecei a escrever por aqui.
Pra começo de conversa é um blockbuster moderno, cheio de tiques visuais e auditivos e uma narrativa que esperaríamos de um blockbuster. Flash de pesadelos em forma de cortes e alucinações, profecias e velhos sábios, previsões de apocalipses e elevação. Monstros gerados por computador e um salvador de voz profunda. Homens musculosos perfurando e esfaqueando uns aos outros e cenas de multidões e inundação, tudo circulado por vistas aéreas de enormes estruturas que estão sendo construídas
Mas espere: Isso não é mais um épico da Marvel levado para as telas. Também não é um filme sci-fi messiânico padrão, na mesma linha de Star Wars ou Matrix. Noé é mais uma imagem de desastre e pesadelo surrealista misturado a uma parábola sobre a ganância humana e compaixão baseado no livro best-seller de todos os tempos, a Bíblia, principalmente no seu livro Gênesis.
Este é Noé, do roteirista e diretor Darren Aronofsky. Uma interpretação da história de Noé e o diluvio. E ele faz mudanças.
Entre outras coisas, Aronofsky tem se movimentado em ideias à partir de versões anteriores de filmes sobre Noé, além de pedaços de outras religiões e mitologias, incluindo a Cabala, paganismo pré-cristão e, ao que parece JRR Tolkien e História sem Fim. Ele usa também os recursos dos quadrinhos que os telespectadores chamariam de "callbacks" com partes do antigo testamento, incluindo o assassinato de Abel por seu irmão Caim, a morte do pai de Noé, Lameque, e o "despejo" de Adão e Eva do Paraíso. A sequencia mais visualmente inventiva do filme é uma elipse na narrativa principal: o auto-contido time lapse reconta o nascimento do universo, é essencialmente uma história do Big Bang que poderia ser descartada em favor do grande show de ciência "Cosmo". E, claro, o elenco internacional fala com sotaque inglês, ou tenta, sotaque inglês sendo o caminho de Hollywood para transmitir "estranheza" ou "antiguidade". Todos os atores tem sobrancelhas elegantemente esculpidas e cabelos lindos, particularmente Russell Crowe/Noé que em uma cena ostenta um brinco que o faz parecer uma versão musculosa de Christopher Walken em O Rei de Nova York.
Noé é ainda a âncora deste épico parcialmente inundado, mas nesta versão, ele é mais do que um herói de ação. Quando as águas subirem ele mudará de novo, tornando-se um anti-herói, e uma verdadeira ameaça para sua própria família: Suas fileiras, a sua esposa Naameh (Jennifer Connely), seus filhos Shen (Douglas Booth), Ham (Logan Lerman) e Jafé (Leo Mchugh Carroll). Há uma mulher chamada Ila (Emma watson) que foi adotada por Noé ainda criança. Muito se fala do complexo de inferioridade de Ila por causa de sua infertilidade. Ela tem uma cicatriz sobrenatural no estomago e não pode ter filhos. Ou assim nos dizem.
A infertilidade de Ila se torna importante mais tarde, quando ela acaba dentro de uma arca de 300x50x30 côvados de medida ao lado de pássaros, mamíferos, repteis, anfíbios e insetos sob a proteção de seu pai adotivo, Antes do diluvio, Deus falou com Noé, não à partir de uma voz, mas através de uma série de sonhos misteriosos que ligam os acontecimentos de Gênesis 6-9 com seções anteriores. É assim: Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden. Depois Eva caiu presa aos encantos da serpente e comeu o fruto proibido (de uma árvore que se parece muito com a Árvore da Vida de A Fonte da Vida, o outro filme do diretor). Os descendentes de Caim e Abel fizeram guerra uns com os outros. Os descendentes de caim se aliaram com os The Watchers, uma raça de anjos caídos ou Serafins que foram incrustados em um magma endurecido criado quando caíram do céu para terra como estrelas cadentes e esmagados no chão; agora eles habitam a terra como "transformers", ou como os "Ents" vistos em Senhor do Anéis de Peter Jackson, eles rugem e resmungam nas vozes filtradas de Nick Nolte e Frank Langela. Os vigilantes são grandes e assustadores e no inicio parecem que serão um obstaculo a missão de Noé, mas logo terão uma mudança de coração e acabam por ajudar Noé que deu na cabeça que apenas os animais deveriam sobreviver depois do diluvio. Ele terá que matar sua esposa e filhos e ele próprio, para evitar que a humanidade pecadora voltasse a irritar o criador.
É aqui que as coisas tomam um rumo em direção a uma alegoria moderna. Como o critico Richard Collins aponta em excelente análise sobre o longa Noé em comparação com a última adaptação para o cinema mudo de 1928, "nada parecido com a seriedade sociopolítica de Aranofsky" segundo sua próprias palavras, e compara a inundação - A avalanche de água afogando um mundo de luxuria - a Primeira Guerra Mundial, "Um diluvio de sangue afogando um mundo de ódio".
O filme de Aronofsky parece ter os mesmos objetivos, mas diferentes preocupações. Noé amarra a ira de Deus ao despojamento indiscriminado da terra e do abate da população animal da Terra por seres humanos gananciosos e famintos. (Noé e sua família são vegetarianos e vêem o consumo de carne como um pecado contra Deus, aqui referido apenas e sempre como "O Criador"). O diluvio, vividamente descrito por Noé como " a união das águas do céus com a terra", é descrito como uma espécie de versão náutica de destruição com as criaturas prensadas entre o céu e a terra. Neste épico bíblico. a água não apenas caem do céu e rasteja em direção a Arca, ela borbulha a partir do solo, é a terra rachada e ferida se enchendo com sangue. As vezes irrompe como a força de gêiser. Uma vista aérea da inundação se espalhando pela terra evoca um câncer a lhe tomar os espaços vazios, neste caso poderia ser a cura de um - a humanidade?
Aronofsky também acrescenta uma subtrama ao filme aumentando a ação com a loucura do anti-herói obsessivo que tem problemas com os pais. Ele está inserido como o chefe descendente de Caim, Tubal-Caim, descrito no Gênesis como o "falsificador de todos os instrumentos de bronze e de ferro", para a história. O personagem é um inimigo déspota de Noé e (curiosamente) um espelho sombrio dele, uma sombra com suas graves falhas e os piores impulsos. Tubal-Caim é uma criatura de apetite puro, e super-macho. O cara que colou o patriarca em "patriarcal". Ele é todo privilegio, todo direito ele acha que tudo e todos (incluído a própria vida) existe por sua causa. Ele acha que a preocupação de Noé sobre o estrupo da natureza e um monte de lamentações sem objetivo. Ele está determinado a assumir a Arca e colocar sua própria tribo dentro dela para sobreviver ao diluvio que apesar de tudo é considerada por ele uma falsa profecia. Ele entra na Arca, e uma vez dentro dela tenta aliciar os membros insatisfeito do clã para sua causa da mesma forma como a serpente agiu com Eva. Noé perdendo o controle sobre a sanidade mental e sua bondade se transforma em um capitão navegando em mar bravo. De repente tudo vira uma casa assombrada por seu psicodrama. como um pai ruim aterrorizando mulheres e crianças nas entranhas de uma versão aquática do Hotel Overlook do Iluminado. Quanto mais Noé se torna desequilibrado, mais ele se assemelha a sua sombra Tubal-Caim. No momento em que ambos trocam golpes, Noé não está apenas lutando contra um tripulante clandestino e assassino, ele esta lutando para suprimir de si mesmo seus piores impulsos.
Isto é, você terá recolhido um imenso, estranho, desajeitado e muitas vezes ridículo, num exagerado e bobo filme, um amalgama de elementos de vários antepassados literários e cinematográficos. Alguns elementos se fundem lindamente como pedaços de destroços arrastado por uma enchente. Aronofsky vai ser justamente criticado por ter adicionado um monte de imagens e noções que fazem a história de Noé menos, em vez de mais especial. Elementos dos quais você não pode escapar no cinema porque todo filme de fantasia sci-fi moderno tem que ser tem que ter desastre e destruição imaginado pelo mesmo roteiro da mente-colmeia, e idealizado pelo mesmo software de CGI chato. Ainda assim as primeiras cenas de combate tribal são emocionantes, as cenas entre Noé e seu avô Matusálem (Antonhy Hopkins), uma especie de equivalente bíblico de Yoda ou ET: e Noé e Tubal-Caim os baleeiros na barrica da Arca: você já viu de tudo nos últimos anos, mais e mais em todos os tipos de blockbuster holliwoodiano.
E, no entanto ainda há uma originalidade feroz em Noé. Apesar de seu conjunto de peças emprestada, roubadas e re-imaginadas, você nunca viu nada assim. É um filme-catástrofe com conotações ambientalistas e CGI de animais ferozes e eventos apocalípticos, e reflexões sobre os papeis primordiais do pai e da mãe, e o velho desejo de controlar seus filhos incontroláveis, e tudo isso periodicamente interrompido por flash-cortes da serpente no jardim, e uma mão de incandescência que seleciona o fruto proibido e Caim caindo de pau em Abel. Os "côvados" de Aranosfsky são cubos reais: A Arca final é composta de blocos, e quando sacode em ondas de água salobra parece um lego de madeira gigante. Ás vezes Aranosfky coloca tudo do lado de fora para que Tubal-Caim/Ray Minestone possa entregar-se a um monólogo sobre porque o homem não tem apenas o direito, mas a obrigação de matar e comer animais e usar a terra como lhe aprouver, ou para que Noé possa contar a história do Big Bang a luz de velas ou cantar para uma criança dormir em versão mais calma de sua voz Inspetor Javet de Les Miserables.
Ao longo do tempo de funcionamento do filme, uma palavra manteve-se piscando em minha cabeça: "fervor". Aranafosky é um cineasta fervoroso. Ele sempre foi, a partir da sua estreia de Pi em diante. Muitos aspectos de Noé são sentidos como uma conexão orgânica de temas e elementos que o obcecava, nos últimos 15 anos: maridos e esposas, pais mães e filhos e filhas, e proteção, que dominam, escravizam, excluindo e aterrorizando uns aos outros; o poder da sedutor da obsessão, seja por drogas (Requie for a Dreams), nostalgia romântica e negação de finalidade da morte (The Fountain) ou ambição artística (Black Swan); a intrusão de eventos sobrenaturais ou míticos, ou estranhos na vida "normal"; a noção de que a racionalidade e a sanidade são estados mentais frágeis que podem facilmente ser destruídos por traumas e desastres.
Se eu tivesse que comparar Noé a todos os filmes bíblicos anteriores, eu iria com Mel Gibson e sua Paixão de Cristo e Martin Scorsese com A Ultima Tentação de Cristo, não porque as historia seriam semelhante (e elas são do ponto de vista bíblico, uma oposição do tipo Antigo versus Novo Testamento), mas porque, mesmo você estando confuso ou entediado, você ainda sente a louca paixão dos diretores irradiando a partir da grande tela. Aranofsky cometeu um erro tático, talvez catastrófico. em que podemos sentir a sua certeza obsessiva, mas não consegue traduzi-lo em nossos próprios termos, como nós devemos ser capazes de fazer conto ou fábula de advertência, que é feito para iluminar ou instruir. O que está na tela, se sente mais e muitas vezes como uma transcrição visual da fantasia ou o pesadelo de um homem, com todas as justaposições desconcertantes ou sem sentido de isto ou aquilo e outras coisas deixadas intactas, exatamente como a mente adormecida de Aranosfky encontrou-os primeiro.
O efeito liquido me faz lembrar uma passagem bíblica do Novo Testamento que me soa muito atual no cenário religioso de hoje: 1 Coríntio 14: (isso vai parecer eu se fosse um pregador), "Qualquer um que fale em línguas edifica a si mesmo, mas o que profetiza edifica a congregação" Arenosfky é o falar em línguas aqui, edificando-se, mas não a congregação. Mas não é todo dia que você começa a ver um grande cineasta americano falar em línguas, balbuciando a uma plateia cheia de estranhos sobre o sonho surpreendente que ele tinha, um sonho que ele sabe de muitas formas ser importante, mesmo que ele não saiba explicar exatamente o porquê. Você não ver filmes como esse todos os dias. Você não ver filmes como esse nunca. Ainda que de algum modo Bizarro.
A infertilidade de Ila se torna importante mais tarde, quando ela acaba dentro de uma arca de 300x50x30 côvados de medida ao lado de pássaros, mamíferos, repteis, anfíbios e insetos sob a proteção de seu pai adotivo, Antes do diluvio, Deus falou com Noé, não à partir de uma voz, mas através de uma série de sonhos misteriosos que ligam os acontecimentos de Gênesis 6-9 com seções anteriores. É assim: Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden. Depois Eva caiu presa aos encantos da serpente e comeu o fruto proibido (de uma árvore que se parece muito com a Árvore da Vida de A Fonte da Vida, o outro filme do diretor). Os descendentes de Caim e Abel fizeram guerra uns com os outros. Os descendentes de caim se aliaram com os The Watchers, uma raça de anjos caídos ou Serafins que foram incrustados em um magma endurecido criado quando caíram do céu para terra como estrelas cadentes e esmagados no chão; agora eles habitam a terra como "transformers", ou como os "Ents" vistos em Senhor do Anéis de Peter Jackson, eles rugem e resmungam nas vozes filtradas de Nick Nolte e Frank Langela. Os vigilantes são grandes e assustadores e no inicio parecem que serão um obstaculo a missão de Noé, mas logo terão uma mudança de coração e acabam por ajudar Noé que deu na cabeça que apenas os animais deveriam sobreviver depois do diluvio. Ele terá que matar sua esposa e filhos e ele próprio, para evitar que a humanidade pecadora voltasse a irritar o criador.
É aqui que as coisas tomam um rumo em direção a uma alegoria moderna. Como o critico Richard Collins aponta em excelente análise sobre o longa Noé em comparação com a última adaptação para o cinema mudo de 1928, "nada parecido com a seriedade sociopolítica de Aranofsky" segundo sua próprias palavras, e compara a inundação - A avalanche de água afogando um mundo de luxuria - a Primeira Guerra Mundial, "Um diluvio de sangue afogando um mundo de ódio".
O filme de Aronofsky parece ter os mesmos objetivos, mas diferentes preocupações. Noé amarra a ira de Deus ao despojamento indiscriminado da terra e do abate da população animal da Terra por seres humanos gananciosos e famintos. (Noé e sua família são vegetarianos e vêem o consumo de carne como um pecado contra Deus, aqui referido apenas e sempre como "O Criador"). O diluvio, vividamente descrito por Noé como " a união das águas do céus com a terra", é descrito como uma espécie de versão náutica de destruição com as criaturas prensadas entre o céu e a terra. Neste épico bíblico. a água não apenas caem do céu e rasteja em direção a Arca, ela borbulha a partir do solo, é a terra rachada e ferida se enchendo com sangue. As vezes irrompe como a força de gêiser. Uma vista aérea da inundação se espalhando pela terra evoca um câncer a lhe tomar os espaços vazios, neste caso poderia ser a cura de um - a humanidade?
Aronofsky também acrescenta uma subtrama ao filme aumentando a ação com a loucura do anti-herói obsessivo que tem problemas com os pais. Ele está inserido como o chefe descendente de Caim, Tubal-Caim, descrito no Gênesis como o "falsificador de todos os instrumentos de bronze e de ferro", para a história. O personagem é um inimigo déspota de Noé e (curiosamente) um espelho sombrio dele, uma sombra com suas graves falhas e os piores impulsos. Tubal-Caim é uma criatura de apetite puro, e super-macho. O cara que colou o patriarca em "patriarcal". Ele é todo privilegio, todo direito ele acha que tudo e todos (incluído a própria vida) existe por sua causa. Ele acha que a preocupação de Noé sobre o estrupo da natureza e um monte de lamentações sem objetivo. Ele está determinado a assumir a Arca e colocar sua própria tribo dentro dela para sobreviver ao diluvio que apesar de tudo é considerada por ele uma falsa profecia. Ele entra na Arca, e uma vez dentro dela tenta aliciar os membros insatisfeito do clã para sua causa da mesma forma como a serpente agiu com Eva. Noé perdendo o controle sobre a sanidade mental e sua bondade se transforma em um capitão navegando em mar bravo. De repente tudo vira uma casa assombrada por seu psicodrama. como um pai ruim aterrorizando mulheres e crianças nas entranhas de uma versão aquática do Hotel Overlook do Iluminado. Quanto mais Noé se torna desequilibrado, mais ele se assemelha a sua sombra Tubal-Caim. No momento em que ambos trocam golpes, Noé não está apenas lutando contra um tripulante clandestino e assassino, ele esta lutando para suprimir de si mesmo seus piores impulsos.
Isto é, você terá recolhido um imenso, estranho, desajeitado e muitas vezes ridículo, num exagerado e bobo filme, um amalgama de elementos de vários antepassados literários e cinematográficos. Alguns elementos se fundem lindamente como pedaços de destroços arrastado por uma enchente. Aronofsky vai ser justamente criticado por ter adicionado um monte de imagens e noções que fazem a história de Noé menos, em vez de mais especial. Elementos dos quais você não pode escapar no cinema porque todo filme de fantasia sci-fi moderno tem que ser tem que ter desastre e destruição imaginado pelo mesmo roteiro da mente-colmeia, e idealizado pelo mesmo software de CGI chato. Ainda assim as primeiras cenas de combate tribal são emocionantes, as cenas entre Noé e seu avô Matusálem (Antonhy Hopkins), uma especie de equivalente bíblico de Yoda ou ET: e Noé e Tubal-Caim os baleeiros na barrica da Arca: você já viu de tudo nos últimos anos, mais e mais em todos os tipos de blockbuster holliwoodiano.
E, no entanto ainda há uma originalidade feroz em Noé. Apesar de seu conjunto de peças emprestada, roubadas e re-imaginadas, você nunca viu nada assim. É um filme-catástrofe com conotações ambientalistas e CGI de animais ferozes e eventos apocalípticos, e reflexões sobre os papeis primordiais do pai e da mãe, e o velho desejo de controlar seus filhos incontroláveis, e tudo isso periodicamente interrompido por flash-cortes da serpente no jardim, e uma mão de incandescência que seleciona o fruto proibido e Caim caindo de pau em Abel. Os "côvados" de Aranosfsky são cubos reais: A Arca final é composta de blocos, e quando sacode em ondas de água salobra parece um lego de madeira gigante. Ás vezes Aranosfky coloca tudo do lado de fora para que Tubal-Caim/Ray Minestone possa entregar-se a um monólogo sobre porque o homem não tem apenas o direito, mas a obrigação de matar e comer animais e usar a terra como lhe aprouver, ou para que Noé possa contar a história do Big Bang a luz de velas ou cantar para uma criança dormir em versão mais calma de sua voz Inspetor Javet de Les Miserables.
Ao longo do tempo de funcionamento do filme, uma palavra manteve-se piscando em minha cabeça: "fervor". Aranafosky é um cineasta fervoroso. Ele sempre foi, a partir da sua estreia de Pi em diante. Muitos aspectos de Noé são sentidos como uma conexão orgânica de temas e elementos que o obcecava, nos últimos 15 anos: maridos e esposas, pais mães e filhos e filhas, e proteção, que dominam, escravizam, excluindo e aterrorizando uns aos outros; o poder da sedutor da obsessão, seja por drogas (Requie for a Dreams), nostalgia romântica e negação de finalidade da morte (The Fountain) ou ambição artística (Black Swan); a intrusão de eventos sobrenaturais ou míticos, ou estranhos na vida "normal"; a noção de que a racionalidade e a sanidade são estados mentais frágeis que podem facilmente ser destruídos por traumas e desastres.
Se eu tivesse que comparar Noé a todos os filmes bíblicos anteriores, eu iria com Mel Gibson e sua Paixão de Cristo e Martin Scorsese com A Ultima Tentação de Cristo, não porque as historia seriam semelhante (e elas são do ponto de vista bíblico, uma oposição do tipo Antigo versus Novo Testamento), mas porque, mesmo você estando confuso ou entediado, você ainda sente a louca paixão dos diretores irradiando a partir da grande tela. Aranofsky cometeu um erro tático, talvez catastrófico. em que podemos sentir a sua certeza obsessiva, mas não consegue traduzi-lo em nossos próprios termos, como nós devemos ser capazes de fazer conto ou fábula de advertência, que é feito para iluminar ou instruir. O que está na tela, se sente mais e muitas vezes como uma transcrição visual da fantasia ou o pesadelo de um homem, com todas as justaposições desconcertantes ou sem sentido de isto ou aquilo e outras coisas deixadas intactas, exatamente como a mente adormecida de Aranosfky encontrou-os primeiro.
O efeito liquido me faz lembrar uma passagem bíblica do Novo Testamento que me soa muito atual no cenário religioso de hoje: 1 Coríntio 14: (isso vai parecer eu se fosse um pregador), "Qualquer um que fale em línguas edifica a si mesmo, mas o que profetiza edifica a congregação" Arenosfky é o falar em línguas aqui, edificando-se, mas não a congregação. Mas não é todo dia que você começa a ver um grande cineasta americano falar em línguas, balbuciando a uma plateia cheia de estranhos sobre o sonho surpreendente que ele tinha, um sonho que ele sabe de muitas formas ser importante, mesmo que ele não saiba explicar exatamente o porquê. Você não ver filmes como esse todos os dias. Você não ver filmes como esse nunca. Ainda que de algum modo Bizarro.
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